Não quero lhe causar choque ou repulsa minha rosa. Acontece que estou colocando no lugar que pertencem as minhas pétalas. Veja bem, guarde seus espinhos, isso não é um ataque! Apenas lhe mostro um outro formato de flor, uma nova cor. Sou eu! Estou prestes a desabrochar por completo e quero uma terra para mim. Talvez não ela toda, mas um pedacinho que chamarei de meu (l)ar – assim respiro. Pode ser absurdo para você que sempre teve pétalas tão belas nessa rosa vermelha e esses espinhos longos e grossos, em retaguarda. Mas nem esse belo, essa força ou e nem essa paleta me refletem, rosa. Eu só quero ser a minha flor, seja ela qual for. Girassol, Orquídea, Cravo, Cravina, Hortênsia. São tantas! Por que só uma, rosa? Podemos juntas ser um lindo jardim! Apenas aceite, é desse meu jeito que eu vou florescer.
Como prometido, hoje eu trago uma lista de 5 jogos com personagens femininas fortes e não sexualizadas. Para quem não sabe, este post era para ter saído na semana passada, mas durante a minha pesquisa uma coisa me incomodou profundamente, resultando nesse texto: A invisibilidade da mulher gamer vs a objetificação feminina nos jogos. E se antes eu já queria trazer esta lista, agora estou ainda mais motivada.
Importante frisar que eu sou uma gamer beeeem iniciante. Apesar de viciada em jogos casuais e para celular, só comecei a jogar em consoles e computadores no ano passado. A história de por que eu demorei tanto a me enveredar por esse lado renderia até outro post, mas enfim. Por isso, eu apenas tive oportunidade de jogar três dos itens da lista, sendo ela completada por indicações de terceiros e pesquisa. Mas eu digo que pode confiar sim, tá? E lá vamos nós:
Child of Light
Esse e Ori and the Blind Forest são os mais lindos que eu já joguei (e os meus favoritos também). Ele tem uma história ao mesmo tempo delicada e grandiosa, narrada em versos. Child of Light é uma mistura de RPG e plataforma, que se passa no reino fantástico de Lemuria. Entre pequenas aventuras e batalhas, a protagonista Aurora deve buscar e devolver o Sol, a Lua e as estrelas, que foram roubadas pela Rainha da Noite.
Aurora é uma princesa (que não gosta de ser chamada assim), de uma região da Áustria governada por seu pai, um duque. Ela, no entanto, morre e acorda em Lemúria, o que faz seu pai adoecer e seu povo ficar à mercê dos que querem usurpar seu trono. Aurora deve então entrar numa jornada para salvá-los. A sua única ajuda são os vários amigos que encontra pelo caminho, mas ela não precisa ser salva por ninguém. Ela vai desenvolvendo suas habilidades e cresce ao longo do jogo, e nenhuma de suas fases é sexualizada.
Plataformas: PlayStation 4, Xbox One, PlayStation 3, PlayStation Vita, Xbox 360, Wii U, PlayStation Portable, Microsoft Windows
Life is Strange
De uma Áustria fantasiosa do século XIX para a costa oeste americana dos tempos atuais. Life is Strange conta a história de Max, uma estudante de fotografia que presencia o assassinato de uma jovem e ao impedi-lo, descobre ter o poder de voltar no tempo. Os primeiros momentos do jogo mostram um sonho de Max (que mais tarde se revela como um presságio) em que uma enorme tempestade ameaça Arcadia Bay, a cidade fictícia onde se passa a história, levando a garota a tentar salvá-la.
Max também começa a ajudar na investigação do desaparecimento de Rachel Amber, amiga e antiga paixão de Chloe, a garota que ela salvou e que na verdade era sua melhor amiga de infância. O jogo permite que suas escolhas definam o destino do jogo, de modo que Chloe possa ser também o interesse amoroso de Max. Desse modo, Life is Strange não apenas foge dos estereótipos das personagens femininas nos games, como também quebra tabus e traz representatividade LGBT.
Plataformas: PlayStation 4, Xbox One, PlayStation 3, Xbox 360, Microsoft Windows, Mac OS Classic, Linux
Alice: Madness Returns
Este jogo é a sequência de American McGee’s Alice, de 2000, inspirado no clássico infantil de Lewis Carroll. Em ambos, uma Alice adulta passa por terapia para superar acontecimentos traumáticos do passado, como a morte de seus pais e sua irmã em um incêndio, que a levam a pesadelos e alucinações. Após uma tentativa de suicídio, Alice é convocada pelo Coelho Branco a retornar ao País das Maravilhas e salvar o local da tirania da Rainha de Copas.
Eu tenho um pouco de relutância com jogos que você tem que controlar a câmera e o personagem separadamente, ainda mais por ser iniciante. Me falta coordenação motora. Por isso, ainda não explorei muita coisa desse. Mas a temática é bem interessante, a trilha sonora é incrível e o visual é bem legal. E a protagonista trazida aqui se encaixa muito bem nas exigências para estar nesta lista.
Plataformas: PlayStation 3, Xbox 360, Microsoft Windows (Madness Returns) e PlayStation 3, Xbox 360, Microsoft Windows, Mac OS Classic (American McGee’s)
Mirror’s Edge
Taí um jogo que eu ainda não joguei, perdi a oportunidade de baixar free pro Xbox e agora me arrependo. Mas isso não vem ao caso. Mirror’s Edge é uma mistura de ação, aventura e esporte, tudo em primeira pessoa. O pano de fundo é um regime totalitário onde a privacidade, a liberdade de expressão e a comunicação são suprimidos e controlados. Como alternativa, corredores são usados para transmitir mensagens, utilizando o parkour. A protagonista Faith é uma entre esses corredores.
Apesar de ser em primeira pessoa, os movimentos do jogo permitem que mais do corpo do personagem apareçam na tela, como braços e pernas. No entanto, nem as roupas nem as curvas de Faith são objetificadas, seja nesses momentos, seja em enquadramentos de corpo inteiro. O jogo original de Mirror’s Edge foi lançado em 2008 e em 2016 saiu Mirror’s Edge Catalyst, uma prequel/reboot.
Plataformas: Windows, PlayStation 3, Xbox 360, IOS, Windows Phone (original) e PlayStation 4, Xbox One, Microsoft WindowsMicrosoft (Catalyst).
Undertale
Este jogo indie e retrô de RPG é bem humorado e tem uma proposta pacifista (ufa, quantos adjetivos). Nele, dá para resolver todos os conflitos sem machucar ninguém. O personagem principal é um humano que cai por um buraco em um mundo subterrâneo cheio de monstros. É revelado que no passado humanos e monstros viviam na superfície, mas após uma guerra estes foram obrigados a viver sob a terra.
Quem recepciona o protagonista é Toriel, uma cabra que explica a ele como é o local onde foi parar. Entre as demais personagens femininas, temos Undyne, peixe líder da guarda real, Dra. Alphys, uma cientista e Chara, que na verdade é andrógina. É outro jogo a explorar temas que são tabu além de não objetificar nenhuma de suas personagens femininas.
Plataformas: Mac OS Classic, Microsoft Windows, Linux
Agradecimento especial pela ajuda da Letícia Rodrigues do blog Gênero e Videogames.
Quando ultrapassamos aquela barreira do senso-comum de que “homem é homem” e “mulher é mulher”, essa é a primeira dicotomia que encontramos: sexo x gênero. Através dessas duas ideias opostas mas complementares, fica fácil iniciar a nossa compreensão do que é de fato ser homem ou mulher em sociedade. O sexo é o biológico, a nossa genitália, o nosso fenótipo, o qual desenvolvemos no útero e sobre o qual não temos poder nenhum de decisão. Somos ou XX ou XY. Ok. Aí nascemos, e somos socializados de uma ou outra forma de acordo com a genitália que possuímos. Rosa para meninas, azul para meninos. Bonecas para meninas, carrinhos para meninos. Essa dicotomia faz tanto sentido que de fato algumas correntes do feminismo não vêem necessário ir além da oposição desses termos para a construção de sua teoria e de suas lutas – e não tem nada de errado nisso.
Símbolo Intersex, Fonte: Wikipedia
No entanto, o filósofo da linguagem J.L. Austin costumava dizer que podemos perceber a existência das convenções justamente quando elas são quebradas. Assim, é interessante pensar o que acontece quando alguém desestabiliza a dicotomia sexo x gênero. Esse é o caso dos indivíduos intersexuais, por exemplo.
Começando por uma pesquisa superficial na wikipédia sobre intersexualidade, já podemos levantar algumas questões. A definição que encontramos é a seguinte: “Intersexualidade, em seres humanos, é qualquer variação de caracteres sexuais incluindo cromossomos, gônadas e/ou órgãos genitais que dificultam a identificação de um indivíduo como totalmente feminino ou masculino”. Um indivíduo intersex é, segundo essa definição, qualquer indivíduo cuja biologia não o permite encaixá-lo em um dos dois sexos existentes. Sendo a intersexualidade advinda da biologia de um indivíduo, podemos nos perguntar o porquê de ela não existir enquanto possibilidade de gênero. E se ela não existe como possibilidade, como é possível encaixar esse indivíduo na sociedade?
Existem duas formas: “Modelo centrado no sigilo e cirurgia: Fazer a cirurgia e medicar nos primeiros 24 meses de vida; Modelo centrado no paciente: Esperar o paciente crescer, explicar a complexidade das questões envolvidas e permitir que ele escolha qual gênero prefere, o momento que deseja a cirurgia e quais cirurgias prefere fazer.”
Essas duas formas de inserção do indivíduo na sociedade são, na verdade, tratamentos, como que para curá-lo de uma doença e, assim, torná-lo bem-ajustado. No primeiro modelo, o indivíduo intersex tem um dos sexos imposto a ele, e o sigilo garante (ou tenta garantir) que ele jamais descubra o procedimento pelo qual passou. O segundo modelo se baseia na vontade e escolha do paciente. Um dos motivos para se preferir o segundo é “evitar a insatisfação do paciente ao qual foi imposto um sexo, mas desenvolve preferência pelo outro”. Em ambos os casos, não se considera o não-tratamento como uma opção, e a designação de um gênero ou de outro é dada arbitrariamente pelo médico, determinada pelo menor nível de complexidade da cirurgia – “É mais fácil fazer genitais femininos e por isso ela tem sido preferida pelo modelo médico tradicional” – ou se permite ao paciente escolher um ou outro.
Como pode o sexo biológico, a base de nossa socialização, de nossa existência enquanto indivíduos em sociedade, ser tão arbitrário e necessariamente binário? Ainda mais: como pode a intersexualidade, sendo uma ocorrência biológica, ser tão incompreensível a ponto de tentarmos eliminá-la para que colocar o indivíduo de volta em um local de compreensão social, um local ou feminino, ou masculino?
A filósofa Judith Butler coloca que “o ‘sexo’ é (…) não simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição estática daquilo que alguém é: ele é uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural”. Em outras palavras, ser homem ou mulher é o que nos torna compreensíveis dentro do sistema binário em que vivemos. Qualquer coisa fora disso e deixamos de existir, de ser visíveis, compreensíveis.
Assim, a intersexualidade é considerada vazia de significado, é um sexo vazio de “gênero”, por assim dizer. E se um sexo é vazio de gênero, como podemos dizer que sexo e gênero são, de fato, dois lados de uma mesma moeda?
Dessa desestabilização de conceitos, Butler propõe: “A categoria do “sexo” é, desde o início, normativa: ela é aquilo que Foucault chamou de ‘ideal regulatório’. Nesse sentido, pois, o ‘sexo’ não apenas funciona como uma norma, mas é parte de uma prática regulatória que produz os corpos que governa, isto é, toda força regulatória manifesta-se como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir — demarcar, fazer, circular, diferenciar — os corpos que ela controla.”
Partindo desse pressuposto, podemos dizer que não só o gênero é um construto social, mas o sexo também. Assim como o gênero, o sexo é um arbitrário com impressão de naturalidade. A categoria sexo não é apenas descritiva de uma biologia pré-existente, mas também produz a biologia possível: a biologia que seja ou feminina ou masculina, excluindo outras biologias e outros corpos, e roubando-os de sua possibilidade de existência.
Butler reconhece que a distinção entre sexo e gênero foi crucial ao feminismo beauvoiriano, mas essa distinção esconde que “a natureza tem uma história”. Segundo ela, “a construção social do natural pressupõe o cancelamento do natural pelo social”. A questão da interssexualidade serve como exemplo desse cancelamento: para construir-se a natureza do sexo, apaga-se a natureza do intersexo.
A pergunta que fica é: se o gênero é o significado social que o sexo assume em uma determinada cultura, o que resta do biológico (sexo) uma vez que ele tenha assumido seu caráter social (gênero)? Mais importante ainda: de que forma essa perspectiva transforma o nosso entendimento e prática do feminismo?
Leituras:
BUTLER, Judith. Corpos que pensam: sobre os limites discursivos do sexo. In: LOURO, G. L. (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
Nascida em Rasht e crescendo durante os primeiros anos da guerra Irã- Iraque em Teerã, a franco-iraniana Marjane Satrapi o qual adotou o nome artístico de Marjane Ebhamis anos mais tarde, passou a ser conhecida como a primeira mulher do Oriente Médio a ser indicada ao Oscar por sua série animada adaptada de seus quadrinhos, Persépoles, que retrata da sua infância até a vida adulta.
Crescendo num âmbito familiar instruído e politizado, pois seus pais eram comunistas, Marjane foi criada ouvindo histórias sobre os rebeldes e a queda do governo do Xá, Ruhollah Khomeini, formando suas próprias opiniões sobre diversos assuntos, como os diretos femininos e religião. Ainda na pré adolescência, ao desafiar o sistema fanático de seu rígido colégio, seus pais decidiram manda-la para morar com uma amiga da família na Áustria, visando livrar-la da represália ditatorial.
Já em Viena ela começou estudar no Liceu Francês de Viena durante todo ensino médio, o qual nesse período teve que sair da casa dos amigos da família, passando pela casa de oito homossexuais, diversas republicas estudantis e pensionatos, o qual desse último, passou a morar nas ruas, adquirindo assim uma pneumonia grave que quase a levou a morte.
De volta a Teerã, mesmo rodeada pelos parentes e pela família, incluindo sua tão amada avó, dona de um perfume peculiar emanado das margaridas em seus seios, presas ao sutiã, Marji, apelido carinhoso de menina, adquirira uma depressão profunda. Após sair do momento depressivo, decidiu por se casar com Reza aos 21 anos por conta das leis iranianas de proibirem o namoro, forçando o matrimônio, mas contrariou as mesmas restrições três anos depois, pedindo o divórcio num país onde as mulheres que o conseguem , passam a ser vistas como constantemente prostitutas.
Com o seu diploma de Comunicação Visual pela faculdade de Belas Artes, a Universidade Islâmica Azad, Marjane se mudou para Estrasburgo, França, mas atualmente mora em Paris, onde trabalha como autora e ilustradora livros infantis.
A bagunça se disfarça. É uma coisa doida. Cada respiração funda é uma viagem de ida e volta para qualquer situação aleatória que a minha mente lembra.
– Você precisa filtrar – Diz o Eu, o que mais sofre – Olha essas caixas! Como você vai arrumar isso?
Estou sentada no canto da mente, observando o Eu no meio da bagunça:
– E se eu não arrumar isso?
Ele me fita com raiva. E conheço aquela raiva. Ela é minha.
– Não quer mais histórias novas? Gostou de passar os últimos meses nesse canto, apenas existindo? – Ele chuta uma caixa – “Março a maio/2015”. Isso tem quase dois anos e você trás isso à tona como se fosse algo bom de se lembrar!
– Olha o tamanho disso. É maior do que eu e você juntos. E não foram só 3 meses, nós dois sabemos.
Ele chuta outra caixa, um pouco menor:
– “Novembro/2016”. E essa? Qual a sua desculpa? “Está recente”?
Sim, está.
– Queima essa merda. – Levanto do meu canto e vou até a caixa – De que adianta você ser dominado por um mês de esperança para depois acabar desse jeito de novo?
Fico de pé, encarando o último trauma, fingindo para o Eu que aquela caixa de traumas não é a mais perigosa.
– Megan, você precisa filtrar isso. O nosso lar sempre foi aqui e olha esse lugar agora! Tem trauma aberto desde 2008.
2008. Caixa de traumas lotada de crises que, até então, não sabia que eram crises. Lembro como se fosse ontem do dia que chorei desesperada no banheiro da escola, enquanto meu corpo todo tremia e suava.
– Megan, nós precisamos trabalhar juntos.
Eu já não sei mais separá-los. Virou simplesmente um chão cheio de lembranças negativas de histórias que simplesmente aparecem diante dos meus olhos. Dentre todos os meus erros, durante toda a minha vida, não valorizar a minha paz mental é, definitivamente, o que mais sai caro.
– Megan…
Encaro o meu Eu. Ainda apavorado, mas continua lutando. Houve um tempo onde ele não tinha forças para tentar, e hoje ele cobra algum tipo de melhora, seja qual for. Caminho diante todos os traumas espalhados e pego a caixa do ano passado. Pequena mas pesada, muito pesada:
– Não consigo tirar daqui…
– Mas podemos fechar.
– Já fizemos isso antes…
– Podemos fazer de novo. – Ele pega minha mão e me dá um sorriso – Nós merecemos mais do que existir.
Nos sentamos do lado da caixa, pegamos uma fita adesiva e dobramos as bordas. Saía da caixa seu cheiro, nossos assuntos, nossas risadas. Meus olhos lacrimejam enquanto eu ouço a cola da fita grudando. É hora de assumir para mim mesma que alguns ciclos precisam ser fechados e seguir em frente, porque não dá mais para deixar as caixas ali, daquele jeito, tropeçando em traumas dentro da minha própria cabeça.
Terminamos de fechar e, magicamente, a bagunça diminui.
– Faltam muitas ainda.
O Eu enxuga minhas lágrimas e sorri:
– Não importa o quanto falta, fechamos uma. Você não está mais apenas existindo, não nesse momento, e eu estou de pé.
Eu estou de pé. Faltam muitas caixas, de muitos anos, de muitos traumas, mas eu estou de pé. Sorrio para o Eu que, após um momento longo de desespero, eu reconheço. Ele me oferece o braço e sua aliança dourada brilha na mão direita. Nesse momento, minha cabeça não parece mais o inferno de algumas horas atrás, e a esperança de dias melhores invade minhas veias.
“O que a gente acredita é que para que uma mulher tenha forças para lutar por todas as outras ela precisa, primeiro, estar bem consigo mesma.”
É inegável que estamos cansadas das estampas fofas e várias coisas mais demonstrando a tão famosa “fragilidade feminina”. Não somos as únicas. As amigas Yasmin e Karim, também cansadas do senso comum, decidiram montar uma linha de camisetas com um toque especial: empoderamento.
Durante a semana tive o prazer de conversar com elas sobre a decisão de fazer parte da vida de outras mulheres através de roupas que são muito mais do que apenas peças: são demonstrações de amor próprio e autoconhecimento.
Megan Garcia: O que é a MinKa? De onde surgiu a ideia de criar uma marca voltada ao empoderamento feminino?
MinKa: MinKa é uma camisetaria que nasceu para empoderar! Partiu do ideal de duas amigas com um mesmo anseio, o de poder usar roupas que fossem muito mais que meros objetos utilizados para cobrir a pele. O desejo era o de poder permitir que as mulheres se vestissem da maneira que são e sentem, podendo expressar a força feminina, mostrar suas lutas e inspirar outras mulheres a lutar. Como mulheres que são, Yasmin e Karim, fundadoras da MinKa, sempre foram inquietas com as imposições sociais de um padrão machista que muitas vezes machuca e destrói, por isso resolveram lutar contra isso de maneira ativa, por meio de produtos que dão força à causa feminista e à luta diária das mulheres. Assim, em 22/02/2016, nasceu a MinKa, na cidade de Belo Horizonte – MG. Uma camisetaria cujo ideal é sair do básico e da superficialidade e provocar o empoderamento feminino por meio de paixões, inspirações e elementos de força feminina presentes em cada MinKa.
Imagem: MinKa Camisetas – Facebook
MG: Vocês usam a frase “Nossas camisetas não vão mudar o mundo, mas as mulheres que as usam sim”. Para vocês, qual a importância da mulher saber a força que ela tem perante o mundo?
M: O feminismo, como a gente sabe, é uma luta coletiva, ou seja, todas lutando por um todo. O que a gente acredita é que para que uma mulher tenha forças para lutar por todas as outras ela precisa, primeiro, estar bem consigo mesma. E é por isso que a gente acredita no empoderamento individual de cada mulher como uma grande arma do feminismo. Quando uma mulher está bem consigo mesma, está consciente de sua força e capacidade ela tem muito mais força para lutar coletivamente.
MG: Para vocês, qual a importância de aplicar o feminismo na vida profissional?
M: A gente acredita que feminismo é vivência. Então ele tem que estar presente em todos os aspectos da vida. De quando você vai à padaria à quando você vai falar em uma reunião de trabalho na empresa. Não significa que a vida de uma feminista se resume a discursos calorosos e militância, mas quando a gente se propõe a mudar uma sociedade, isso de certa forma acaba se aplicando a qualquer atitude nossa, o jeito que falamos, que agimos. E em cada lugar que passamos a gente pode plantar uma semente do questionamento, pode fazer as pessoas pararem para refletir determinadas situações. Na vida profissional, portanto, não seria diferente. Principalmente se levarmos em conta que o mercado de trabalho ainda é um dos grandes ambientes de luta da mulher, onde ainda somos muito subvalorizadas e ainda temos tanto a conquistar.
Imagem: MinKa Camisetas – Facebook
“Muitas vezes as próprias mulheres estão tão imersas nessa visão social que não sabem reconhecer quando determinada atitude é assédio. Ou, se reconhecem, não se sentem no direito de reclamar, reivindicar, rebater.”
MG: No último carnaval, vocês lançaram a campanha “#CarnavalSemAssédio”. Qual a sensação de ver outras pessoas abraçando uma causa que, para nós, mulheres, vai além do óbvio? É uma esperança de um Brasil menos machista?
M: Infelizmente o machismo é algo tão cultural e enraizado que não podemos tratar nenhuma questão como óbvia. Muitas vezes nós mulheres somos tão oprimidas que nós mesmas não conseguimos enxergar determinado ato como opressão. É o caso do assédio, por exemplo, principalmente quando se fala em carnaval, popularmente conhecido como a “Festa da Carne”. Muitas vezes as próprias mulheres estão tão imersas nessa visão social que não sabem reconhecer quando determinada atitude é assédio. Ou, se reconhecem, não se sentem no direito de reclamar, reivindicar, rebater. E essa foi a idéia da nossa campanha, mostrar de forma simples, com frases de fácil leitura e assimilação, que qualquer atitude que ultrapasse a vontade da mulher ou a deixe desconfortável pode sim, ser classificada como assédio e algo que podemos e devemos lutar contra. A campanha realmente teve uma aceitação muito bacana em todo o Brasil e isso com certeza nos enche de alegria e da uma pontinha de orgulho. Teve muita mulher desfilando empoderada no carnaval e mostrando que estamos cada vez mais conscientes e fortes e isso nos da, com certeza, muito mais força pra acreditar que a cada dia somos capazes de mudar um pouquinho, ainda que como um grãozinho de areia, a sociedade em que vivemos, na certeza de que um dia a gente chega lá!
MG: Vocês já sofreram algum tipo de ataque por defender o empoderamento feminino?
M: Sim! Já recebemos alguns comentários desagradáveis no nosso Instagram. Mas sempre que esses comentários vêm acompanhados de algum questionamento a gente faz questão de responder e colocar o nosso posicionamento. E algumas vezes recebemos em nosso chat no site algumas mensagens como “comunistas do diabo” e “peludas mal amadas” (risos). Nada que nos fizesse temer por continuar a fazer o trabalho que temos feito. Mas sabemos que estamos sujeitas a ataques mais severos, afinal, uma mudança social gera reflexos na vida de muita gente. Vai ter muita gente perdendo seu posto de “dono da sociedade” ou “dono das mulheres” e isso incomoda muito. Mas em sentido oposto, nós recebemos muitas mensagens de agradecimento, incentivo ou até mesmo um carinho puro e simples. Todos os dias temos algum tipo de retorno positivo e isso vai nos deixando tranquilas de que estamos no caminho certo.
Imagem: MinKa Camisetas – Facebook
“Nosso país, assim como, na verdade, a maior parte do mundo como um todo, é estruturado em uma base patriarcal, na qual as mulheres são, ainda hoje, subjugadas, relegadas, diminuídas.”
MG: No site da MinKa vocês abrem espaço para qualquer tipo de conversa, inclusive desabafos pessoais. Isso já aconteceu com vocês?
M: Sim! Nós nos colocamos sempre à disposição porque a MinKa nasceu pra isso, para empoderar mulheres! Já recebemos alguns contatos de desabafos, mas o tipo de contato que a gente geralmente recebe é mais como um agradecimento ou retorno positivo. Por exemplo, uma mana contando que determinada postagem nossa a ajudou a despertar um certo questionamento em uma amiga ou parceiro. Ou contando que não tinha uma boa visão do feminismo e que nossas postagens a ajudaram a mudar essa visão.
MG: Qual a sensação de saber que cada peça que vocês mandam chega a uma mulher que aprendeu a ser dona das próprias vontades?
M: Isso é maravilhoso. Foi pra isso que a gente criou essa marca, para poder empoderar mulheres por todo o Brasil por meio de nossas camisetas, fazer com que cada uma tenha plena consciência de que pode tudo! E a gente acaba tendo uma real noção disso a cada mensagem de retorno que a gente recebe das nossas clientes depois que o pacote chega a casa delas. É uma sensação indescritível de fazer parte de algo bom e poderoso, que desperta na gente a vontade de fazer cada vez mais, para atingir cada vez mais mulheres.
Imagem: MinKa Camisetas – Facebook
MG: Qual a importância de espalhar idéias feministas em um país machista?
M: Bom, como eu disse lá no início, a gente tem a plena noção de que o feminismo é uma luta coletiva. Mas por acreditar que para ter forças para lutar coletivamente uma mulher precisa, primeiro, estar consciente de sua própria força, a gente decidiu trabalhar dessa maneira, com o empoderamento feminino. A gente acredita que quanto mais mulheres a gente conseguir empoderar com nossas mensagens, mais somaremos à luta feminista enquanto movimento coletivo. E a importância disso no Brasil é extrema. Vide recente discurso da maior autoridade política do país, que, no Dia Internacional das Mulheres, reduziu o papel da mulher na sociedade aos afazeres do lar. Nosso país, assim como, na verdade, a maior parte do mundo como um todo, é estruturado em uma base patriarcal, na qual as mulheres são, ainda hoje, subjugadas, relegadas, diminuídas. E muitas realmente não possuem forças ou o conhecimento necessário para que sejam capazes de se dar conta do poder que têm. E é nesse sentido que a gente trabalha, na tentativa de mostrar a cada vez mais mulheres o seu real valor, para que possamos, todas juntas, construir um futuro melhor para todas as mulheres do nosso país e, assim, do mundo.
O filme “As sufragistas” é baseado na história das mulheres britânicas que lutaram pelo direito ao voto no século XX, foi inspirado em fatos reais, com início em 1897 com a formação da União Nacional das Sociedades de Mulheres Sufragistas. Antes do movimento em si, foi publicado por Mary Wollstonecraft o livro “Reivindicação dos direitos da mulher” que questionava a realidade da mulher nesse período, influenciando e levando a uma reflexão sobre a organização de um movimento em prol dessas mudanças.
Em 1904 começou a Aliança Internacional das Mulheres Sufragistas na tentativa de mais uma vez alcançar uma mudança significativa, porém, todos eram grupos pacíficos que tentavam por meio de diálogo, o que não surtiu efeito. Assim, surgiu a União Social e Política das Mulheres, com o intuito de ser mais incisiva na causa, só aí o movimento sufragista ganhou a forma de uma revolução.
Imagem: reprodução/internet
É retratado no filme o início do que hoje é conhecido como a primeira onda feminista, relatando o ativismo das britânicas (brancas) na luta pela igualdade de direitos. O filme mostra outros tipos de opressões vividas pelas mulheres da época, como: assédio sexual, trabalho análogo à escravidão, submissão feminina e a falta de direito das mulheres em relação aos seus filhos.
Imagem: reprodução/internet
Uma frase que demonstra realmente o que o filme quer passar é a cena em que Emmeline Pankhurst faz um discurso de incentivo às militantes e diz: “Durante cinquenta anos temos trabalhado de forma pacífica para garantir o voto para as mulheres. Temos sido ridicularizadas, maltratadas e ignoradas. Agora percebemos que ações e sacrifícios, devem ser a ordem do dia. Estamos lutando por um tempo em que cada menina nascida neste mundo terá uma oportunidade igual aos seus irmãos. Nunca subestime o poder que as mulheres têm de definir os nossos próprios destinos. Nós não queremos quebrar as leis, nós queremos fazê-las.”.
Em 1928 a lei que deu direito ao sufrágio feminino entra em vigor na Inglaterra. A luta das mulheres não terminou e deu origem a segunda e terceira onda feminista. Hoje ainda temos muito o que reivindicar, e o feminismo está aqui para ser usado como principal forma de conseguir a equidade.
Ai está ele de novo
Nem ao menos cheguei ao meu destino
E meu corpo já reage com demasiada euforia
A ultima vez? Trezentos e sessenta e cinco luas atrás.
Ainda suspiro com tais momentos
Uma simples chamada
Onomatopeia capaz de violar um cofre há muito trancado
Revelando segredos, relembrando carícias acompanhadas de olhares maliciosos
Aí está ele mais uma vez
Nem ao menos cheguei ao meu destino
E o vento frio da montanha já me trouxe seu cheiro
Consigo ver suas ondas
Estão na cor água marinha
Já faz dez minutos que estacionei
Não quero sair do carro
Não quero sentar à mesa
Não quero relembrar
Consigo ver seus lábios
Vermelhos
Sabe amor, todo dia lembro de você ao acordar e ao dormir. Todo dia lembro na minha rotina de algum momento ao seu lado, bom e ruim. Lembro do seu toque – tão ardente! Nossa química era forte demais, envolvente. Encostamos nossas bochechas e ali eu senti um quente amor. Ainda não senti o mesmo novamente. Mas ai eu lembro do quanto você me diminuía! Eu mal recebia parabéns no meu próprio aniversário… Meus planos? reduzidos a pó por você. Meus projetos? legais…
Sabe, eu senti que te amava de verdade quando pelo seu simples sorriso tão sincero de felicidade eu me emocionei. Eu senti alegria imensa por te ver feliz! Mas em todos os momentos em que a felicidade era minha, o silêncio era predominantemente violento. Como se entrasse em meu peito e arrancasse o pulsar da minha pura e lúdica alegria.
Eu perdi meu sorriso com você. Tanto perdi que até você reconheceu… Esse meu sorriso largo, grande e contagiante, que gera empatia nas pessoas. Você me calou amor! Perdi meu eu e nem percebi de tão distante que já permanecia. Foi preciso você partir, você deixar os pedaços já semi mortos em mim, para eu voltar.
Ainda não regressei por completo. É um quebra-cabeça, onde a cada dia procuro a peça certa para cicatrizar os rasgos profundos aqui deixados. Todo dia, lembro de você ao acordar e ao dormir. Mas todo dia eu também lembro de mim mesma, de quem fui ao seu lado. Eu estou chegando ao meu eu, querido ex-amor. Estou chegando a um tipo de amor que representa a química mais verdadeira que irei encontrar: eu mesma.