A invisibilidade da mulher gamer vs a objetificação feminina nos jogos

Cristina Santos, mulher gamer que EXISTE

O post que eu ia trazer hoje seria apenas uma lista sobre games e personagens femininas fortes. Só que, logo no início da minha pesquisa, eu acabei mudando de ideia por achar um reforço para algo que na verdade todo mundo já sabe. Você talvez tenha visto um tweet que comparava os resultados das buscas no Google “bombeiro” e “bombeira”, que inclusive rendeu um post do Buzzfeed com algumas outras profissões.

https://twitter.com/loveszjb/status/826501845547937794

Que sexualização feminina existe a gente já cansou de falar e repetir (mesmo que alguns indivíduos insistam em se fazer de surdos), mas a comparação ajuda a explicitá-la ainda mais. Pois bem, acontece que na minha PRIMEIRA pesquisa pro post, ao jogar inocentemente as palavras “mulheres videogame” no Google, o resultado que obtive foi esse:

De 21 imagens, 13 são sexualizadas, sendo que entre as que não são apenas duas não carregam estereótipos (e são basicamente a mesma imagem). Seguindo a ideia do tweet e do Buzzfeed, experimentei digitar as palavras “homens videogame” e ver o que apareceria. Obviamente, o resultado foi BEM diferente, como você pode ver abaixo:

Zero, absolutamente ZERO sexualização. Várias imagens de bancos de fotos, alguns memes, charges e… estereótipos sobre mulher. O mais “grave” contra homens pode ser a piadinha de que eles largam tudo por um videogame. Mas a contrapartida nessas mesmas piadas é a ideia que mulheres são impacientes e encaram isso como megeras. E, claro, jamais poderiam jogar com seus parceiros, onde já se viu? Videogame pra mulher só se for ferramenta de sedução, mesmo. E essa ideia se reforça quando você desce para as páginas seguintes:

Mesmo na pesquisa sobre homens, ainda aparecem aqui e ali imagens de mulheres sexualizadas

Lembrando que essas pesquisas dão destaque aos resultados mais acessados pelo público. Como isso se relaciona à forma como a sociedade enxerga mulheres gamers (e em geral)? São raros os ambientes realmente receptivos e acolhedores ao nosso gênero, e o universo nerd e principalmente o gamer levam essa máxima a níveis elevados. Mesmo representando 52,6% do público de jogos no Brasil, ainda somos vistas como minoria. E a maioria das mulheres já sofreu algum tipo de assédio ou preconceito nesses espaços, levando muitas a diminuírem o hábito e se afastarem.

Somos invisíveis como consumidoras, mas não como produto. Ou ao menos os nossos corpos não são. Personagens e principalmente protagonistas femininas são menos comuns nos jogos, e, quando aparecem, muitas vezes são postas como meros atrativos para o olhar masculino.

Imagens dos jogos Soul Calibur, Street Fighter, Dragon‘s Crown e Mortal Kombat

Em jogos de luta e RPGs online essa característica é gritante, com personagens sempre curvilíneas e com trajes minúsculos. No segundo, a diferença na forma como personagens masculinos e femininos são tratados explicita ainda mais. Enquanto o visual dos primeiros é trabalhado pensando em funcionalidade e verossimilhança, o dos segundos notavelmente não se preocupa com essas questões.

“‘Armaduras femininas em Fantasia’: uma análise – A ‘armadura com seios’: porque armaduras ajustam ao corpo, não é mesmo? – A ‘armadura com seios +’: Caso você não tenha percebido onde estão os seios, aqui está uma dica sutil! – A ‘qual a porra do sentido’: porque, sério, QUE?” (tradução livre) Além de tudo, a “boob plate” (armadura com seios) ainda poderia matar quem a usasse

Felizmente, esse cenário tem apresentado mudanças, mesmo que lentamente.  Um estudo aponta que a sexualização feminina nos videogames tem diminuído, principalmente se comparado ao seu boom no final da década de 90. Um exemplo claro da forma como o mercado tem notado a necessidade de mudança é o reboot de Tomb Raider. Lara Croft sempre teve sua sensualidade muito explorada (e provavelmente foi uma das personagens que mais contribuíram para a explosão da sexualização), no entanto, em 2013 a personagem voltou com uma aparência mais natural, humanizada e discreta.

Com curvas menos acentuadas (e absurdas) e menos pele à mostra, a sensualidade ainda existe, mas é bem mais sutil

Como tudo na vida, a busca por uma melhor representação nos videogames é uma luta diária. Muitos jogos (como vários de luta e RPG já citados) ainda seguem a mesma cartilha de objetificação e tantos deles não parecem querer mudar a fórmula. Mas saber a importância que isso tem para a gente e a forma como esses valores refletem no tratamento das mulheres no ambiente gamer é muito importante. Não somos objetos. Somos consumidoras e, como consumidoras, queremos nos identificar com as personagens com as quais jogamos, e não nos sentirmos como um mero produto.

Ps: Quanto à lista que citei no primeiro parágrafo, fica para um próximo post. Aguardem que ela ainda virá!

O feminismo e o ensino fundamental

 

Imagem reprodução/internet

 Muito tem se falado sobre feminismo nos últimos anos. O movimento cresceu assim como o ódio por ele.

Mas em dias em que meninas ainda na infância são alvos de pequenos gestos machistas, de opressões mascaradas de brincadeiras e baixa estima, precisamos mais do que nunca iniciar ainda mais cedo a educação aliada ao feminismo.
E eu explico.

Em algumas escolas da região, meninas são obrigadas a passar parte do intervalo, recreio, ou chame como quiser, sentadas para que os meninos possam correr livremente, sem as tocar, sem as observar ou fazer “brincadeiras” sobre seus corpos ainda em formação.

Em algumas escolas é ensinado às meninas que devem se omitir perante os meninos. Que devem não se misturar, não devem fazer as mesmas atividades porque não são apropriadas para meninas.

Como se isso já não fosse ruim, as meninas são as únicas que sofrem a ditadura do uniforme, a advertência pelo tamanho do short, a pressão para estarem sempre alinhadas.

E tem mais: em casa, a rotina dessas meninas não muda. Pois os pais, por hora despreparados, incentivam a anulação das meninas, bem como romantizar os relacionamentos abusivos de desde a infância da criança.

Percebemos que as escolas que se intitulam a extensão de nossas casas, tomaram como regra punir as meninas por serem mulheres. Ora, é mais fácil do que ensinar o respeito aos meninos, afinal eles são homens. É isso é normal, não é?

Se um colega bate em você, isso é sinal de que ele te ama. Se ele puxa seu cabelo é demonstração de carinho. Se ele te zoa no intervalo é porque secretamente é apaixonado. Se ele passa a mão em seu corpo sem a sua permissão, você devia agradecer por ele te achar linda.

Esse tipo de atitude reforça o machismo e seus privilégios. Esses meninos precisam aprender que ser criança não invalida a crueldade de seus atos. E é na escola onde a gente começa a nossa formação social. É na escola que aprendemos como ser indivíduos de uma sociedade. E é nesta mesma escola que todos deveriam se sentir seguros e confortáveis, independente de sua condição sexual ou gênero.

Isso só vai mudar quando ensinarmos nossas meninas a não se calar. Quando ensinarmos que elas são mais especiais e importantes do que está refletido em um espelho. Que elas podem e devem experimentar toda e qualquer atividade escolar, desde o futebol até a horta comunitária. Que elas não vieram ao mundo para servir e sim para somar. Que elas são lindas, cada uma com sua característica, e que ninguém que diga o contrário deve ser levado em conta.

Isso vai mudar quando meninos, homens, forem punidos por invadir os corpos das nossas meninas. Quando forem punidos por agredirem e violarem o espaço delas. Quando entenderem que mulheres devem ser respeitadas. Quando pararem de responsabilizar as mulheres pelos seus atos.

Temos um longo caminho. Mas pra começar precisamos apenas de um passo.

Lotte Reiniger


Acho incrível como, não importa o ramo, sempre nos lembramos mais das contribuições dos homens do que das mulheres. Aprendemos na escola nomes de vários cientistas, compositores, romancistas e artistas, mas quantos deles eram mulheres? Quantas mulheres tiveram a honra de terem seus nomes mencionados em uma sala de aula do ensino médio junto com sua importância?
Eu só consigo me lembrar de três, mas não sei se o problema era específico da minha escola, ou com minha memória. Conversando com outras pessoas em vários outros lugares, incluindo países, não creio que seja o caso.

O ponto em que quero chegar é, essa é uma tendência que vejo acontecendo em praticamente todos os ramos, e com a animação não é diferente.

Charlotte “Lotte” Reiniger (1899 – 1981) foi uma grande animadora e fez grandes contribuições técnicas para o ramo. Walt Disney mesmo só conseguiu Branca de Neve e os Sete Anões (1937) graças a algumas das técnicas desenvolvidas por Lotte e seu marido. Uma delas foi sua técnica de utilizar camadas de vidro para poder dar o efeito de profundidade em suas obras.

Lotte Reinigier em sua mesa de trabalho. O mecanismo serve para ajustar e acionar a câmera localizada logo acima da mesa. Assim, foto a foto, Lotte animava suas silhuetas.

Aliás, contrária a crença popular, o mais antigo longa de animação não foi Branca de Neve, e sim As Aventuras do Príncipe Achmed (1926), produzido pela nossa querida Reiniger em um tempo em que ninguém realmente considerava a ideia e uma animação que durasse mais de 10 minutos e não servisse apenas para fazer o público rir.

Seu estilo de animação com silhuetas foi grandemente inspirado pela arte chinesa de teatro de sombras e seu amor pelo cinema. Enquanto a maioria dos filmes na época dependiam das expressões faciais para demonstrar emoções e ações, Reiniger utilizava-se apenas da linguagem corporal de seus personagens para passar as histórias de suas animações.

Frame do curta Däumelinchen.

Em vida, Lotte Reiniger produziu cerca de 40 animações em seu estilo único. Uma boa parte delas pode ser encontrada no youtube, inclusive o longa As Aventuras do Príncipe Achmed. Fora, é claro, as inúmeras homenagens e referências que encontramos por aí, como a animação d’O Conto dos Três Irmãos em Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte II, e a homenagem do Google em seu 117º aniversário.

E deixo aqui, com vocês, um dos meus curtas favoritos produzidos por ela, Däumelinchen (Polegarzinha. Alemão é uma língua tão desnecessariamente agressiva), para vocês terem um gostinho da graciosidade que são as animações dela.

A tirania dos cachos

Arte: Kai Samuel-Davis

Uma gigante empresa do ramo de cosméticos recentemente lançou mão de uma propaganda utilizando o seguinte jargão: “Em terra de chapinha quem tem cachos é rainha.”

A partir disso, passei a me questionar: e quem não tem cachos, é o quê? Na época em que “cabelo bom era cabelo liso” o jargão obscuro e obsceno que transpassou tempos e tempos e “tentou” (e tenta) suprimir a autonomia de escolha da mulher era: “se não está liso está feio, portanto, engula seu orgulho e seu desejo e siga a tendência” – as mulheres negras sabem bem.

Mas e hoje, será que está diferente? sim, está, mas nem tanto, escuto cada vez mais alto a voz feminina ecoar pelo mundo, mas também vejo grandes empresas de cosméticos se aproveitando do alcance dessa voz com o intuito não de transformar cabelos, mas de lucrar domando corpos. E como fazem isso? simples, lançam uma nova tirania: a dos cachos. Eis um assunto aparentemente banal, mas creio que diz muito sobre nós, como estamos nos percebendo e nos posicionando. Esse é um verdadeiro assunto de cabeça- temos de pensar.

É correto que para vender um produto tenha que se elaborar estratégias de marketing, publicidade e propaganda a fim de que o produto seja desejado e adquirido pelos consumidores, o que não é aceitável, é que em pleno século XXI, onde ocorre um verdadeiro “Bum” de discursos e análises sociológicas e históricas sobre os padrões de beleza impostos às mulheres, uma empresa ainda elabore uma campanha utilizando argumentos com potencial de segregação- queria acreditar na pura falta de criatividade. Infelizmente pude presenciar algumas mulheres hostilizando umas as outras pelo fato de que algumas optaram por manter seus cabelos alisados- lamentável.

Observando várias páginas sobre transição capilar nas redes sociais, deparei-me com uma grande quantidade de depoimentos de mulheres contando sobre os efeitos da transição capilar em suas vidas. O que pude ver e sentir, é que cada mulher que se submeteu ao processo, atribuiu um significado único a experiência, embora o sentimento de libertação seja comum entre a maioria. Trata-se também de uma transformação que a olho nu parece proceder apenas de uma mera mudança capilar, mas aos olhos da alma e da história, trata-se de uma mudança profunda que tem a ver com a vivência e singularidade de cada mulher, escolha e autonomia, e sobretudo, de um ato político, cujo jargão poderia ser: lisa ou cacheada, black, careca, descabelada ou rasta, quem escolhe sou eu e a indústria não manda em nada.

É inegável a visibilidade progressiva que a luta feminina vem ganhando nos últimos tempos, isso é uma vitória, mas é importante que estejamos atentas a determinados movimentos que podem transformar essa vitória em um “presente de grego”.

Dito isso, eu grito bem alto de cá: em terra de chapinha, quem tem cachos é quem quer, quem escolheu ter cachos e todas, são rainhas.

 

A Liberdade do Poder

Image: Reprodução/Google

     “Onde estão minhas meninas?” pergunta Taylor Momsen em um show do The Pretty Reckless, na Argentina, em julho de 2012. No show, que eu já vi infinitas vezes, ela usa uma bota de cano longo, que fica acima dos joelhos, e uma camiseta do Che Guevara. Sim, apenas isso. O cabelo loiro, longo e fino chega até a cintura e a sexualidade transmitida vai além da ausência de sutiãs e meias. Vai além dos estereótipos, além do salto, do lápis preto, do rock no fundo: é liberdade que vaza.

     A representatividade da mulher que me transmite liberdade me faz vagar sobre a vida real. Aquela fora do palco, fazendo eu me encontrar com uma adolescente de 17 anos, que foi criada através da ideologia de mulheres comportadas e futuras mães de família. Cair no estereótipo de “boa moça” nunca esteve nos planos, mas a ideologia era forte e persistente. “Aumenta esse shorts”, “sobe esse blusa”, “eu não quero você transando por aí”. Legal, mas e o que eu quero? E a minha liberdade? E o meu prazer? Onde fica?

     Parece tendência podar asas de meninas que querem voar, porque, claro, pássaros fora de gaiolas são donos de si mesmos e sabe-se lá o que pode acontecer. Imagina se elas aprendem a se amar e descobrem, dentro delas, a liberdade da auto-suficiência?  A ideia de uma mulher mandando no próprio sexo deixa a sociedade em choque, já que é a sociedade que nos obriga a seguir roteiros escritos para nós, só que por outras pessoas. Querem que vivamos histórias que não são nossas, com pessoas que não se importam. Porque, seremos sensatas, eles não se importam. Eles não nos querem opinando, pensando, crescendo, vivendo. Mas, pasmem, quem tem que querer, seja o que for, somos nós.

     Não acredito que algum dia a sociedade vá deixar as nossas meninas em paz, mas eu me tornei uma fonte de criação de asas e, cada vez mais, pregadora da liberdade e do direito de viver a vida à sua própria forma. O tabu do sexo nos cria como se querer algo fora dos padrões fosse algo incomum, mas não é. Afinal, o que são padrões? Somos mais do que listas riscadas e mulheres sem histórias. Somos mais do que padrões.

     Hoje sinto minha liberdade vazar. Pelos olhos, pelos dedos, pela boca. Hoje eu entendo que tesão é dizer sim quando quer e, principalmente, falar não; é se permitir querer mudar e poder voltar ao começo quantas vezes quiser. É se sentir bem com suas escolhas e viver com elas; é ser amiga da pequena morte e, ao mesmo tempo, não querer dormir. Liberdade é poder.

     Que poder nunca nos falte.

Sinto muito, mas eu não quero as suas flores! 8 de março – Dia Internacional (da luta) da Mulher

Participantes do velório das centenas de pessoas que morreram no incêndio na fábrica têxtil de Novo Iorque, em 1911

Pode parecer ingratidão da minha parte, mas as parabenizações que são entregues à nós mulheres no dia de hoje são dispensáveis. O dia Internacional da Mulher, oficializado na data de hoje pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1977, é o marca da luta das mulheres por melhores condições de trabalho, salário justo e igual ao dos homens, diminuição da carga horário trabalhada, extinção do assédio por parte de colegas e patrões, ou seja, reivindicações sérias e que nada tem haver com flores e bombons.

Gosto de dizer que 8 de março está no mesmo patamar de importância que datas como as de Tiradentes ou da Consciência Negra. Conhecendo as histórias que iniciaram toda a luta feminina, fica mais fácil entender toda real importância envolvida no dia da mulher.

Infográfico com breve história do Dia Internacional da Mulher

 

Devem ser incluídos em todos esses fatos históricos o lançamento do livro O Segundo Sexo, da autora francesa Simone de Beauvoir, considerado um dos grandes livros do feminismo. Também  podemos incluir o movimento realizado na França, 1968, em busca de garantir os direitos das minorias, incluindo os das mulheres, que lutavam para que pudessem ter direito de decidir sobre o uso das pílulas, o sexo livre e a decisão de constituir ou não uma família.

Reprodução/Internet

 

Os acontecimentos no Brasil também não ficam atrás. No site do Jornal Folha podemos encontrar uma lista com mais datas com acontecimentos importantes que devem ser incluídos nos assuntos abordados pela sociedade no dia de hoje. Como por exemplo as mulheres conquistando o direito ao voto em 1934 e a criação da Lei Maria da penha, em 2006. Clicando aqui você conseguira ver a lista completa.

 

Maria da Penha, responsável pela maior lei de proteção as mulheres.

Diante de tantas informações, não podemos mais tratar o dia 8 de março apenas como um dia de romance. hoje é dia de luta, de reivindicações, de busca pelo respeito e pelos direitos femininos. Se você, diferente de mim, gosta de receber suas flores e seus bombons, será levada para jantar e terá/teve um café na cama, aproveite bastante. Mas aproveite também para pensar em quais outras questões devem ser levados a sério hoje e divida essas questões com o mundo.

Enfim, hoje ainda é o nosso dia e eu desejo que seja uma data com muitas realizações e que o máximo de respeito possível seja direcionado a vocês manas.

 

Fontes:

https://forumdemulheres.com/dia-internacional-da-mulher-artigo-da-prof-a-joana-darc-faria-de-souza-e-silva/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_Internacional_da_Mulher

http://www.scielo.br/pdf/ref/v9n2/8643

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/03/1864604-entenda-o-dia-da-mulher-confira-fatos-marcantes-da-historia-da-mulher.shtml

 

http://blogueirasfeministas.com/2017/03/8-de-marco-as-mulheres-vao-parar-vamos-juntas/

 

http://blogueirasfeministas.com/2015/03/8-de-marco-para-alem-das-comemoracoes-a-luta-e-o-empoderamento-das-mulheres/

 

Até breve! | Pausa no Blog

     Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que a gente tem que saber a hora de dar uma pausa e respirar. Com o blog isso não poderia ser diferente. Nós amamos o que fazemos e temos muito orgulho do conteúdo que entregamos para vocês. Mas, infelizmente, nosso trabalho estava sendo comprometido por inúmeros fatores.

     Nós somos quatro autoras, e se as quatro estão tendo dificuldades de continuar postando e estão estafadas pelos compromisso (com o blog ou não), é sinal que precisamos de férias. Infelizmente de outros compromissos nós não podemos nos desvincular, mas o blog era pra ser uma atividade prazerosa. Como escrevemos aqui por amor e despretensiosamente, optamos por parar por uns dias.

     Não, isso definitivamente não é um adeus. É sim um até breve. Não temos uma data certa de retorno, mas será dentro de alguns meses. Nesse tempo, além de refrescar a mente (o que pode até nos ajudar a ter mais ideias para vocês), nós vamos também fazer uma pequena reforma no blog. Reforma essa que já estamos planejando há tempos.

     Isso não significa, no entanto, que nossa ausência será garantida nesse período. Nos demos o direito de não postar com obrigatoriedade, mas ocasionalmente podem surgir posts descompromissados aqui, assim como na página. Esperamos que possam aguardar pelo nosso retorno e que nosso trabalho melhore cada vez mais. Voltaremos logo, com energias renovadas e cheias de mudanças positivas pra vocês!

Tem que ser pra sempre?

Imagem: Tumblr

Na nossa condição irracional, impetuosa, e muitas vezes invejosa temos ânsia de um pra sempre.

Seja o que for, temos a ideia de que todas as coisas não possuem a necessidade de fluir mas sim permanecer estáticas em nossas vidas, como se a escolha fosse apenas nossa, ou melhor necessária.

Vi amigas sustentando um relacionamento abusivo, quantos casamentos sem amor, quantos amigos cursando faculdades infelizes por não se identificarem com a carreira escolhida… Pra que?

Pra que relutar com o destino? Pra que sofrer em vão e derramar gotas de vida lutando por um pra sempre que supostamente deixa sua vida mais sólida ou mais “feliz”?

Por que não deixar o curso da vida nos arrebatar, e nos deixar livres, recomeçar do zero, até que por fim nos encontremos com nós mesmos?

Se pertencer talvez seja a missão mais complexa de nossas vidas, vivemos em busca da liberdade, mas talvez não saibamos ser livres, vivemos em buscas de correntes que fazem nossas vidas fazerem sentido sendo que só é possível viver sem correntes.

Não existem segredos para se viver, e nem livro de autoajuda que nos tire do abismo que chamamos de vida.

Opiniões alheias já não acrescentam mais. Relacionamento bengala, amizade interesseira, faculdade sem vocação, nada disso é vida! A vida tá no respirar livre, no dormir em paz, no reconhecimento de si mesmo quando olha para trás e possui orgulho do caminho seguido.

Só você pode se fazer feliz, e só você é pra sempre seu.

Exercitando o pensamento crítico: FRIENDS

Reprodução/internet


Este é a o segundo post da experiência que eu me propus a fazer aqui. Leia se quiser entender melhor. Ele também foi feito voltado para pessoas que já assistiram/assistem FRIENDS. Se você for “leigo”, perdoe-me se o texto ficar um pouco confuso.

 

    Depois de falar sobre um dos meus filmes favoritos, é a hora de uma das minhas séries favoritas. “FRIENDS” divide com “Doctor Who”, o topo do ranking das minhas paixões televisivas (não, eu não consigo escolher uma só). Comecei a assisti-la em 2010, fora de ordem, pela Warner. Não foi a primeira série que assisti freneticamente (deve ter sido alguma da Nickelodeon), mas foi a primeira que me fez ir atrás de séries.

     Relutei muito em ver na ordem, para não ter vazio existencial, mas um dia a vontade de ver tudo foi maior que o medo de não ter mais o que assistir. Atualmente estou revendo aos poucos os episódios pelo box que me dei de presente na Black Friday do ano passado. Sim, sou fã, estou em grupos da série, faço inúmeras referências a ela, salvo várias imagens e gifs, sou 100% Mondler shipper, mas isso não me impede de ver seus problemas. A máxima que eu levo não só para esta coluna e para o blog, como para a vida, é que é possível ser fã e raciocinar direito.

     Foto do meu Instagram pessoal pra provar: meu box aí

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     Enfim, protocolo seguido, vamos aos elementos que eu quero apontar. Lembrando da questão do cuidado com o anacronismo: ser algo do passado não ameniza as falhas, mas as vezes as “justifica” até certa medida. “FRIENDS” foi exibida entre 1994 e 2004, numa época em que preocupações sobre representatividade, por exemplo, estavam só engatinhando. E esse é, inclusive, o maior problema da produção.

     Além do núcleo principal – não apenas dos protagonistas, mas de todos os recorrentes – ser inteiro caucasiano, em 10 anos de série, apenas 2 pessoas não-brancas apareceram em mais de um episódio. É tanta brancura que nem sei como os dentes do Ross ainda ofuscaram alguém no s6e8. Esse é um padrão que infelizmente era muito forte na época. Ou a série era “de negros” (como “Um Maluco no Pedaço”), ou o elenco é branquíssimo. E isso é algo que ainda hoje tem melhorado beeeeeem devagar.

Charlie e Julie, únicas personagens não-brancas a aparecerem em mais de um episódio. Ambas saíram com o Ross, tendo Charlie saído também com o Joey. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio, via Canva

      A questão LGBT, apesar de mais presente, não é apresentada da melhor forma possível. Até dá para considerar progressista a presença, como personagens recorrentes, de um casal de duas mulheres, que ainda por cima compartilhavam a guarda de um filho com o pai biológico. Mas algumas das piadas sobre isso têm caráter lesbofóbico gritante, mesmo sendo reprovadas pelos próprios personagens da série – o que acaba parecendo uma tentativa falha de amenização, já que o público ri da piada, e não do contexto.

     Sem falar de Charles Bing, pai do Chandler, que na verdade é trans e carrega estereótipos, piadas preconceituosas e desinformações sobre gênero/sexualidade. Apesar da maioria dessas brincadeiras serem feitas sob a ótica de um filho “traumatizado” e mostrando sua lenta desconstrução, há o mesmo problema da situação anterior. O que causa o riso é a ridicularização da personagem trans, e não o preconceito dos demais.

Kathleen Turner como Charles Bing/Helena Handbasket. A personagem é tratada como gay, drag queen, trans, cross-dresser… Enfim, uma enorme confusão. Imagem: reprodução/internet

      A série ainda traz uma falha que as grandes produções até hoje insistem em repetir: a escalação de uma atriz cis para uma personagem trans, o que reduz as já limitadas oportunidades para essas pessoas. E reforça a higienização, uma vez que a sociedade e a mídia em si tendem a acolher (quando acolhem) apenas trans com passabilidade cis.

     Outro problema gritante em “FRIENDS” é a gordofobia. Foram várias as vezes em que o peso de alguém rendeu deboches, e “Fat Monica” é tratada quase como uma personagem à parte, que serve apenas como piada. Na verdade, a série praticamente não tem personagens gordos que não estejam ali única e exclusivamente para provocar risadas pelos estereótipos, em vez de serem tratados como pessoas reais.

    Ainda não dá para não ver o problema do machismo que permeia vários episódios. Apesar das protagonistas femininas serem liberadas sexualmente, outros personagens e até elas mesmas ocasionalmente praticam slut shame umas com as outras. Há piadas que se sustentam em estereótipos de gênero, como o episódio em que Joey estava “virando uma mulher”. E mais uma vez, várias piadas e objetificações são falsamente amenizadas pela reprovação de outros personagens (tá aí algo que parece uma constante).

Imagem: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio, via Canva

    O ódio criado em cima da Emily também é desproporcional, já que sua reação era totalmente coerente com o trauma que havia sofrido. E, por fim, Ross é extremamente machista e um clássico “nice guy”. Mas salvo raríssimas exceções, isso nunca é posto como algo tão negativo quanto de fato é (o que renderia um post inteiro à parte).

    Eu poderia me prolongar em cada tópico e citar situações específicas que me incomodaram (como o fato da Phoebe, personagem com maior potencial feminista da série, ter feito uma vez um comentário desmerecendo a causa). Infelizmente, como típica série americana dos anos 90 que é, FRIENDS tem inúmeros problemas.

Phoebe sobre feministas: “Nós podemos dirigir. Nós podemos votar. Nós podemos trabalhar. O que mais essas garotas quererm?” Ok, não preciso explicar por que isso tá errado, né? Espero que não. Imagem: reprodução/internet

    Mas isso, apesar de me entristecer, não me impede de ainda amá-la. Assim como eu citei vários pontos negativos, eu poderia citar muitos positivos. Mas esse não é o foco desta série de posts, então só me limito a dizer que, quando nós assistimos às coisas que gostamos criticamente, podemos até sofrer um pouco. Mas isso faz muito bem para a nossa consciência, além de até mesmo nos ajudar a valorizar ainda mais as coisas boas.

Reprodução/internet
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