Gosto de dar ao meu violeta mais violência – Por Carlar

Reprodução/Internet

Eu sentia suas mãos percorrendo todo o meu corpo, eu estava em transe, seus beijos eram quentes e intensos. eu sentia, era intenso, as luzes estavam mais evidentes.. e seu rosto, seu rosto era a coisa mais linda que eu já havia visto. 

03:57 da manhã – Festa no meio do nada
 Descemos do carro dele, estava frio, eu vestia um vestido vinho, meias oito quartos, ele, uma calça jeans qualquer, uma camiseta vermelha e uma jaqueta com capuz, estava lindo.. do jeito que gosto, tinha uma barba e bigode garboso, seu nome era Bruno. Íamos em direção a festa, a música era boa, as pessoas eram bonitas, o clima estava ótimo, ele segurava minha cintura enquanto entravamos na festa, passamos por algumas pessoas se beijando perto dá entrada, era quente lá dentro, as luzes eram fortes, tinha um forte cheiro de maconha, muitas bebidas e algumas balas.
 Fomos direto ao bar, pra esquentar logo de cara a noite, eu peguei um whisky, ele, uma cerveja, nos olhávamos enquanto bebíamos, a música era muito alta, mal dava para conversar… Terminamos as bebidas, levantei da cadeira e fui dançar, ele me olhava com um olhar penetrante, como se desejasse meu corpo nu em cima do dele, estava meio alta pelo whisky, mas ainda sim estava encantada por aquele rapaz… Várias músicas tocando, muitas pessoas dançando, mas os nossos olhares não se perdiam, ele estava sentando tomando mais algumas bebidas, mas seus olhos não saiam de mim, dos meus quadris balançando pra lá e pra cá, eu estava dançando pra ele, só pra ele, eu sorria, ele sorria de volta enquanto enrolava as pontas de seu bigode. Eu já estava dançando a muito tempo, mas meu corpo não se cansava, eu tocava meu corpo me insinuando para ele, e eu percebia, seu olhar sobre mim, não pôde evitar mais que isso, ele se levantou e veio em minha direção, não olhava para ninguém, passou por todo mundo até encontrar meu corpo quente e suado em meio a multidão.
 Outra música começava, a batida dela era estonteante, estávamos nos beijando em meio a pista de dança, nada mais importava ali, seu bigode passava pelo meu pescoço me deixando alucinada, em resposta eu arranhava e apertava suas costas, paramos de nos beijar, ele olhou para mim e sorriu, estava com duas balas na mão, não falou nada.. mas seu olhar disse tudo, de imediato tomei a bala, e ele também, pegamos algum drink, bebemos e voltamos para o canto da pista, a mesma música se repetia e ela já estava fazendo minha cabeça, aquilo era incrível, seu rosto era lindo, eu não me cansava daquilo, nos beijávamos, nos beijávamos muito, senti que o efeito da bala estava batendo, aquela não seria a primeira vez que eu tivera tomado, mas com toda certeza seria a vez mais inesquecível, me virei de costas para ele, ele segurou minha cintura, eu dançava pra ele, rebolava com suas mãos na minha cintura, ele beijava meu pescoço, a música ficava mais rápida e mais alta, eu já estava louca, sua boca mais quente beijando meu pescoço por trás, suas mãos desciam até as minhas coxas, apertando com força, eu sorria, não estávamos mais ligando para nosso meio, o tesão já era notável, precisávamos sair dali…
 Ele segurava minhã mão me puxando pelo meio de todas aquelas pessoas, pelo efeito da bala eu enxergava todos meio embaçados e lentos, somente eu e ele estávamos em movimento,ele sorria muito pra mim, eu também sorria, mordendo o canto dos lábios, eu já sabia o que me esperava, meu corpo estava implorando por ele, estava implorando para senti-lo dentro de mim, era o que eu queria, era o que precisávamos.. Saímos da festa, parecia ser cedo, quase 5 da manhã, as luzes da festa ainda brilhavam muito do lado de fora, a música estava abafada, porém ainda alta, me agarrou pela cintura e me beijou, me contou o que iriamos fazer, eu estava delirando com aquilo!, então sai depressa na frente dele, dançando, sorrindo, me virando de costas para vê-lo, ele estava com o capuz, ascendendo seu beck, lindo, excitante e explodindo de tesão. 
Chegamos ao seu carro, antes de entrar eu me deitei de costas sobre o capô, tudo estava mais lento que o normal, mas ele me tocava e era como se tocasse a alma, eu senti tudo a mais, era intenso, eu estava sensível, era violento com seus tapas na minha bunda, era incrível! ele beijava minhas pernas e eu me sentia no céu, bem, eu estava diante dele e as estrelas eram como pisca-piscas incandescentes.. Ele olhava todo o meu corpo, apreciava cada canto, era indecente, era vulgar. Me virou de frente e subiu pelas minhas pernas beijando os meus peitos, eu arranhava suas costas por debaixo da camiseta e o fiz tirar, passei minha mão arranhado por toda sua barriga e sua tatuagem no peito, as luzes das estrelas só refletiam seu corpo sobre o meu.. tirei meu vestido, puxei ele para cima e o beijei.. beijei seu pescoço, beijei sua boca.. Ele me olhava nos olhos e eu sorria, senti suas mãos passando entre minhas pernas, enquanto minhas mãos passeavam por suas costas, eu estava molhada, gemendo, implorando por ele.. E ele percebeu isso… 
05:03 Da manhã – Estacionamento 
Eu sentia suas mãos percorrendo todo o meu corpo, eu estava em transe, seus beijos eram quentes e intensos eu sentia, era muito intenso, as luzes estavam mais evidentes, tinha hematomas, mas eu gostava, gostava de dar mais violência ao meu violeta, e somente ele sabia como me dar. Ascendi meu cigarro enquanto ele dormia.. e seu rosto, seu rosto era a coisa mais linda que eu já havia visto… estávamos exaustos, chapados, agora dentro de um carro, depois de ter terminado a foda mais incrível de toda nossa vida. 
Carlar.

Eu te amo, mas não sou obrigada – por Mandy (blog Vintezanos)

Deixa eu te perguntar, rapidão mesmo, você já se deu conta alguma vez que amor, por mais importante que seja, não é tudo? Às vezes acho que nos prendemos tanto as histórias românticas de livros e séries, que nos esquecemos de quem realmente somos. Quantas vezes você não se deixou levar por um argumento do seu namorado ou marido, mas pensando que, na real, você não estava errada?

Você tem que se lembrar que antes de amores, você é você. Tem opiniões, queixas e adjetivos diferentes das outras pessoas. Você é uma corda, não uma corda que precisa de um punho para segurar, você é uma corda que sabe dar seus próprios nós. Não precisa de ninguém nem nada para se queixar no seu lugar.

Se no momento você está acreditando que o seu relacionamento acabou, mas algo sempre te puxa a dúvida do e se, caia fora. Não é porque é amor, que é eterno ou que se é obrigatório que aconteça. Amar é amar, realmente algo que não tem como explicar, mas também não é algo que te obrigue a ser ou viver o que não quer.

Sufocar em um relacionamento que não te faz bem, miga, é uma mancada daquelas que vai doer até os ossos das mãos. Pense comigo, tente se imaginar daqui há cinco anos junto com essa pessoa, essa mesma que você ama, consegue? Não? Isso não significa que você não ama, apenas que consegue reconhecer que não é algo duradouro.

Não são todos os amores que foram feitos para acontecer até a eternidade. Alguns fazem mal. Alguns machucam mais que saram e isso você, simplesmente, não é obrigada a lidar.

Não tenha medo de reconhecer que seu amor é um amor passageiro ou um amor que não vai ficar ao seu lado. Isso não te faz fraca ou incapaz, na verdade, só mostra que você é madura o suficiente para dizer a si mesma que ‘na boa, eu te amo, mas não sou obrigada a sofrer por nada’.

Miga, tu é algo muito maior que um relacionamento, existe amores a um, o amor próprio. Ele te faz muito mais feliz que muito amor ciumento, amor sem freio, amor mandão, amor de bad. Então levanta essa cabeça ai e tenha força. Tu ama sim, só não é obrigada a nada.

Caia fora.

 Blog Vintezanos
Este post faz parte da nossa parceria com o blog Vintezanos, da Mandy Castilho

A eterna Frida Kahlo

Frida Kahlo
Artista mexicana multifacetada completaria, no ultimo dia seis, 109 anos

 

A mulher que deixava as suas dores, desgostos, feridas, cicatrizes escondidos por debaixo do vestido colorido, enterrado nas flores que enfeitavam sua cabeça, e na sobrancelha que estampava a imagem forte de artista, de simplesmente Frida.

Muito além de sua imagem, suas pinturas mágicas, encantavam e brincava com o que para muitos era surrealismo mas como a própria dizia era apenas retratos de sua realidade.

 

La Columna 1944
La Columna 1944

Nem a poliomielite, uma coluna fraturada adquirida com apenas 18 anos em um acidente, e tão pouco a impossibilidade de ter filhos calou a sua intensidade e emponderamento.  Militou no partido comunista, e muitas de suas pinturas possuíam a nítida influencia marxista, expondo seus pontos de vista de forma autentica, subjetiva e singular.

A frente do seu tempo, ela não se limitava a seu casamento (Com o muralista Diego Riviera), mantinha sua liberdade possuindo relações com homens e mulheres, escolheu manter seu casamento, embora cheio defeitos, devido o amor irremediável que sentia por Riviera.

 

Frida e Diego
Frida e Diego

 

A presença feminina em suas obras, e seu total rompimento com os padrões estéticos impostos pela sociedade de sua época tornou Frida o principal símbolo feminista, a imortalizando até os dias de hoje.

 

Frida

 

Bem mais que uma pintora, seu dom de transformar as tragédias de sua vida em beleza, arte e renovação, a tornaram a mais pura representação de toda mulher que não permite que a dor e os desgostos da vida calem suas bocas, a personificação da força, da persistência e da natureza feminina.

Por que sair de um relacionamento abusivo não é tão simples quanto parece? – Por Luiza Pion

Reprodução/Internet
Eu escrevo esse texto por três motivos: porque eu já estive em um, porque minhas amigas já estiveram/estão em um e o mais importante: porque sempre vejo muitos julgamentos entorno do que é estar em um.
Quantas de nós já não ouviram coisas do tipo: “Você está nessa situação por que quer.”, “Você gosta de sofrer?”, “Você é cega?”, “Será que você não percebe o que está acontecendo?”. Dentre muitas outras perguntas que nos são feitas no intuito de ajudar, mas, que na verdade só nos magoam ainda mais. Como diria a brilhante Jout Jout sobre relacionamentos abusivos; “Uma parte de você sabe, mas, você meio que não sabe ao mesmo tempo.”(Para quem não conhece o vídeo, clique aqui)
Mas, a questão é: “Se sabemos, não deveria ser fácil então dar um basta?”. Bom, deveria, mas não é. Usando meu relacionamento abusivo como exemplo, e analisando outros relatos que já ouvi, não é tão simples acabar com um relacionamento assim por inúmeros fatores, vou citar alguns que eu considero os principais:

Você demora a acreditar que a pessoa que você ama não te ama também.


Cada um tem sua forma de demonstrar amor, carinho e afeto. Ok. O ponto é que; por estarmos muito envolvidas naquela situação, não percebemos que a pessoa com quem estamos, demonstra através de censuras, descasos, violência verbal e/ou física, ignorar nossas necessidades, além de muitas outras formas de abusos, não se importar conosco e com nosso bem estar. Então, começamos a nos enganar para justificar aquela situação: “Ele é assim mesmo.”, “Ele não estava num dia bom”, “Ele não foi acostumado a pedir desculpas.”, “No fundo ele também estava sofrendo.”


Ele te faz crer que a culpa é SUA, e assim você começa a aceitar que é mesmo.


Usando um exemplo pessoal, muitas vezes meu ex me tratou mal, mas não deliberadamente, e sim de uma forma muito articulada, para que eu acreditasse, que se ele estava agindo daquela forma, bom, alguma coisa EU tinha feito. Óbvio, que erros todo mundo comete na vida, e não estamos isentos de irritar alguém uma vez ou outra. Só que quando se trata de relacionamentos abusivos, não percebemos de forma clara como as situações são sempre projetadas para o nosso comportamento, por exemplo: “Eu desligo o telefone na sua cara, porque você chora demais”, “Eu não vou mais sair com você, você é muito histérica”, “Você é a pior mulher de todas” (sim, isso já foi me dito).
E é aí que ao invés de nos perguntamos: mas eu SOU assim, ou eu ESTOU me sentindo assim por algum motivo? Com quem me trata bem, eu ajo da mesma forma?, Eu tinha esse comportamento antes de conhecê-lo? Nós começamos a pensar: “puxa, ele tem razão, vou me controlar mais.” Mas depois de dias, meses ou até anos, nos damos conta de que nunca é o suficiente.

No fundo, você acredita que o amor cura tudo.


Desde nossa infância, a maioria de nós (mulheres) éramos educadas para sermos, gentis, dóceis, amorosas e prestativas. (algumas não foram criadas assim, e outras simplesmente não têm todas essas características, mas vou abordar o que acontece na grande maioria das vezes). Crescemos com o nosso imaginário sendo moldado para que não importa o que aconteça, no fim, o amor triunfará. Isso está nos filmes, nas novelas e nos milhares de livros de auto-ajuda que em sua grande maioria são destinados a nós. Nós temos uma imensa variedade de textos nos dizendo como deveríamos agir para conquistar o homem amado, (até nas revistas voltada paras as adolescentes), enquanto que para o gênero masculino, esse tipo de “manual sobre o gênero oposto” é ínfimo.
Sendo assim, é muito difícil dar um basta em algo que no fundo, você acredita que possa dar certo. Isso se aplica até a aquele emprego que você detesta, ou aquela faculdade que você não suporta, mas, permanece, porque tem a sensação de que um dia tudo vai melhorar. (Ainda assim, outros tipos envolvimentos, como faculdade ou emprego, por exemplo, geralmente, dependem SÓ de você e do seu comportamento para prosperar. O seu relacionamento não, ele depende de DUAS pessoas. E infelizmente, nos esquecemos disso.). Dessa forma, tentamos amar por dois. Conciliar por dois. Conversar por dois. Entender por dois.

Como sua auto-estima foi bombardeada com negatividade, você sente que ninguém mais vai te dar uma chance “como ele deu”.


“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” – Joseph Goebbels. Essa frase dita Goebbels, traduz o que acontece na nossa mente, depois de se incutir uma ideia várias e várias vezes. (Para quem não sabe, Joseph Goebbels era ministro de propaganda de Adolf Hitler.).
Logo, se é possível “moldar” o pensamento de milhares de pessoas, usando um ideal, também moldamos os nossos, quando sofremos abusos de nossos parceiros. Começamos a nos questionar, quem mais poderia ficar conosco, se somos assim tão: “loucas”, “gordas’, “burras”, “histéricas”, “choronas”, “____insira aqui mais adjetivos depreciativos que eles dizem___”. Dessa forma, começamos a acreditar que é melhor estar com alguém mesmo que te trate mal, AINDA está contigo.


Depois de um tempo, ele parece ter melhorado (mas só parece).


Isso acontece muito depois de um término, um tempo, ou uma briga muito feia. Ele depois de um tempo, parece ter finalmente assimilado que as coisas estavam ruins, e que a partir de agora ele vai fazer de tudo para que nada daquilo se repita, e fique agradável novamente. Isso também aconteceu comigo, depois de um ano, meu ex voltou querendo falar comigo, parecendo realmente muito arrependido do que aconteceu. Não deu duas semanas e ele voltou a me tratar mal novamente, e agir como um completo egoísta. O porquê de isso acontecer? Bom, eu não sei dizer o que se passa na cabeça alheia, e meu texto nem está aqui pra isso. Está aqui para dizer: não se culpe caso isso tenha acontecido. Mesmo que essa chance tenha sido dada muitas vezes. Como eu disse, quando nós realmente queremos acreditar que tudo vai ficar bem, às vezes, é só de uma promessa (mesmo que falsa) que um coração machucado precisa.

Ele te ameaça.


Você já percebeu que há algo errado, e conseguiu ter forças para acabar com o relacionamento. No entanto, você começa a receber ameaças para que mude de ideia: “Eu vou aparecer no seu trabalho.”, “Eu vou me suicidar se você fizer isso.”, “Eu vou tomar os seus filhos.”, “Se você fizer isso, eu nunca mais vou te deixar em paz..”. E como obviamente você não quer que nada disso aconteça, você desiste do término e permanece.
Portanto, eu escrevi esse texto não só para ajudar as minas que estão passando por isso, mas para principalmente dizer: tentem não julgar. Eu sei que é difícil, e às vezes eu mesma caio nessa armadilha. Se essa mina é sua mãe, filha, amiga, irmã, colega… Não aponte o dedo, fazendo-a se sentir (mais) culpada por não conseguir sair de um relacionamento. Veja, bem, meu texto de forma alguma, está aqui para apoiar, ou incentivar as minas a continuarem em relacionamentos abusivos, muito pelo contrário. Eu citei quatro possíveis justificativas, mas, eu tenho certeza que existem muitas outras. Às vezes ela simplesmente não tem forças, por estar extremamente deprimida, não tem informação, não tem apoio, está sendo ameaçada… Então se você se encontra nessa situação, não vou terminar esse texto com a frase: sai logo dessa. E sim: um dia você vai sair, mas enquanto esse dia não chega, estaremos aqui.
 Ps1: Meu texto foi baseado em relacionamentos heterossexuais, homem (cis) (abusivo) – mulher (cis) (“vítima”), mas, eu sei que existem outros tipos de relacionamentos em que o abuso também acontece. Escolhi falar sobre esse parâmetro porque é onde muito vejo mais relatos e vítimas, principalmente pelo machismo tão claro na nossa sociedade.
 Ps2: Se você não se sente a vontade com seu relacionamento, procure ajuda. Converse com alguém, existem diversos tipos de terapias que você pode procurar para recuperar sua auto-estima. Em casos de violência, ligue 180.

Quem escreve

Luiza Pion, estudante de produção cultural, aquariana, feminista, idealista e empreendedora. CEO da Dulce Tangerine. Acredita que a arte pode mudar o mundo.

Para quem acha que HQ é coisa de homem!

Quando se trata de leitura o pensamento das pessoas se volta para livros, contos, poemas, crônicas, enfim. São os mais comuns no mundo da literatura.

Mas e os quadrinhos, eles não entram na lista de leitura de pessoas acima dos 10 anos? Pelo contrário, faz parte do mundo adulto e é coisa séria. Trabalhar com as HQs é algo elaborado, difícil, que requer muita dedicação e paciência. Afinal, criar uma obra é sempre um exercício que demanda tempo.

No mundo dos quadrinhos, o destaque maior sempre foi para os homens. Eles são visto como personagens principais, publico principal e criadores principais. Porém, é enorme a presença feminina nesse meio, só não recebemos os merecidos louros (típico). Em minhas pesquisas sobre o assunto eu encontrei esse documento aqui, ele contém mais de quatrocentos nomes de mulheres que trabalham com histórias em quadrinhos (isso só no Brasil). E em todas as áreas, desenham, criam, editam, colorem, entre outras funções.

Não será possível falar de todos esses talentos de uma vez, então selecionei seis nomes de talentos femininos envolvidos nos quadrinhos, tanto brasileiras quanto estrangeiras.
G. Willow Wilson



Ela é uma escritora norte-americana que se converteu ao islamismo. Ele começou a escrever com 17 anos, foi jornalista no Egito, escreveu artigos sobre o Oriente Médio, foi a primeira mulher ocidental a entrevistar Xeique Ali Gomaa, um dos mais influentes clérigos do islã moderno e lançou seu primeiro romance Alif, o invisível.

Willow é a autora dos quadrinhos da Miss Marvel, da Marvel Comics. Sua história é recheada de representatividade, boas referências e diversidade. Miss Marvel é Kamala, uma adolescente de 16 anos muçulmana com descendência islâmica. Em sua história ela aborda valores (sociais, religiosos, morais, etc). O quadrinho também aborda o fato de Kamala defender um homem e isso mexer com a masculinidade dele.



Patrícia Rehder Galvão – Pagu



Escritora, jornalista, diretora de teatro, desenhista e militante política combativa. Essas são algumas das facetas de Pagu. Seus trabalhos como cartunista não são dos mais reconhecidos, mas após criar o jornal “O Homem do Povo” com seu então companheiro Oswald de Andrade, ela passou a desenvolver tirinhas e publicar no jornal, que teve apenas oito edições, pois foi proibida na Era Vargas. Ela fez tiras para cada uma das edições. No site Lady’s Comicsvocês encontraram todas elas.

Suas tirinhas tinham os personagens Malakabeça, Fanika, um casal rico que não teve filhos e que aceitaram a sobrinha Kabelluda para morar com eles, sobrinha essa que protagonizada cenas de subversão e contestação dos valores morais e políticos daquela época.

Pagu foi homenageada pela quadrinista Ana Recalde que está lançando um selo de trabalhos feitos exclusivamente por autoras mulheres em parceria com o Social Comics.

Carolina Ito


A Carolina é formada em Jornalismo pela UNESP de Bauru e se aventurar pelo universo dos quadrinhos desde pequena, quando passou a ler mangás e, quando mais velha, as Graphic Novels. Sua carreia é movida pela paixão de poder unir o jornalismo com as histórias em quadrinho. Ela é a autora do blog “Salsicha em Conserva” onde publica suas tirinhas e também reportagens feitas toda em quadrinhos. Ela sempre me faz pensar quando leio suas HQs.



Gostaram? Claro que não acaba por aí. São muitas as mulheres que merecem um espaço para falar, mostra ao que vieram. E sempre vamos ter espaço para elas aqui no blog. Se você também quer mostrar seu trabalho para o mundo nos quadrinhos é só entrar em contado pelo email proj.elasporelas@gmail.com. Esse espaço é seu e será um prazer ajudar a divulgar seu talento.

Sou a mulher presa que foge do mundo predador!

 

Caminhando pela selva de pedra e aço, me esquivando a cada passo para não me deparar com o leão que me cobiça como um pedaço de carne em seu prato. Ou em seu carro? Talvez em sua esquina? Será que é em sua moita que de tudo disfarça? Vai ser onde ninguém puder me ouvir gritar.

As pessoas (as muitas pessoas) não compreendem que meu medo é real e aprisionador. O medo de viver que foi impregnado em minha pele. Assim como se impregna o cheiro do esgoto ao corpo dos ratos, que precisam estar escondidos e acuados em buracos para escapar de todos que os veem como um ser dispensável. Ele nada merece além do sofrimento e os ataques por ser quem é. Eu sou o rato!

Também sou mulher que tem a cor e função de ser húmus. Produzida com o dever de ser fertil, fácil, abundante, útil para a agricultura machista que insiste em me alocar onde achar devido para produzir o que for de seu maior interesse. Sou uma escultura de terracota, que esbanja todo sua cor nos museus criados para a degustação masculina. A arte que deve ser apreciada e usada por todos aqueles que se mostrarem mais afim de impor seu direito de tocar quando quiser, levar para onde mais convier, fazer o que seu instinto primitivo disser, me obrigar ao que eu não quiser.

Nasci com um crachá que me rotula como “ser a ser moldado pelo mundo”, de forma que fique mais fácil de ser aceita no mundo. Afinal, o mundo nos fará arrepender de ser diferente do que ele almeja para nós. Mundo, mundo, mundo… Mundo? Nem tanto. Nem todos. Você é diferente, sua amiga pensa de outro jeito, sua vizinha também não quer fazer uso desse rotulo que colocaram em meu crachá. Eu sei, são todas como eu.

O problema não é todo o Mundo, o problema é uma gigantesca parcela dele que insiste em querer molda-lo a sua maneira. O problema esteve em minhas tias que me disseram para andar como moça ao invés de correr feito um cavalo.

” – Parece um menino, tá doido!”

O problema sempre estará nos crachás. São eles que ditam o que você DEVE SER, nunca o que você quer ser. Querer não é poder , afinal. Mas eu quis! Então fiz uso de um pincel permanente para escrever de forma escarranchada em meu peito:

APENAS EU

Eu quis ser, então eu serei. Serei a menina que corre como cavalo/menino, que fala alto, usa samba canção enquanto está na frente do marido e fio dental quando está sozinha em casa.

Serei a feminista, já que ele me deu o tal pincel permanente; serei a dona de casa, porque ninguém mais tem capacidade de cuidar da minha casa melhor do que eu; serei a vadia; a recatada, a chefe, a menina, a mãe, a grossa, a meiga.

Mas sabe o que eu nunca mais vou ser? A presa.

A Women Up Games quer que as mulheres tenham o controle

Women Up
Imagem: reprodução/Women Up Games

Women Up Games é uma empresa idealizada pela engenheira Ariane Parra, e que busca o empoderamento feminino através dos vídeo-games. Em 2013, observando a baixa presença de mulheres em seu curso de Design de Games, Ariane começou a pesquisar sobre o assunto e a iniciativa começou a engatinhar.

Ariane Parra, idealizadora da Women Up Games
O projeto começou efetivamente em 2014, e em julho de 2015 a fotógrafa Juliana Coringa entrou para a equipe, como braço direito e Diretora de Imagem e Conteúdo das redes sociais. Em agosto do mesmo ano fizeram seu primeiro evento, com a participação de cerca 80 mulheres. Desde então são realizadas atividades que visam inserir o público feminino no mercado de games, como consumidoras e também como desenvolvedoras. Se destacam entre as ações palestras, workshops e campeonatos de vídeo-game inteiramente voltados para elas.

“Em todos nossos eventos nosso papel é deixar o público feminino a vontade para jogar e conhecer esse mundo. O importante para a gente é a diversão e a experiência que cada evento proporciona para as participantes. É tão gratificante ver um grupo grande de mulheres se permitindo divertir jogando juntas e aprendendo coisas novas” – Ariane

Juliana Coringa, Diretora de Imagem e Fotografia

Uma pesquisa divulgada em março deste ano revelou que 52,6% do público de games no Brasil é composto por mulheres. Ainda assim, a atividade continua sendo vista como algo de predominância masculina. Na área de desenvolvimento, no entanto, o mercado ainda é dominado pelos homens. A Women Up quer mudar esse cenário e equilibrar cada vez mais a balança.

“[Nós queremos] Fazer com que a frase ‘eu não sei jogar’ suma e dê lugar para “eu posso tentar jogar”. Só dessa forma as mulheres vão dar uma chance para conhecer os jogos digitais e se empoderar desse mundo que tem espaço para todo mundo. A equidade no mundo dos games só vai acontecer quando mais mulheres participarem ativamente de eventos e de workshops e perceberem que nosso lugar também é na tecnologia, nos games, onde quisermos” – Ariane

À medida em que o projeto vai crescendo, esse sonho vai parecendo cada vez mais próximo. Mas Ariane, Juliana e as WUGERS (como são chamadas as integrantes da equipe) querem muito mais. Elas ainda sonham em realizar campeonatos femininos em vários estados do Brasil e conquistar mais colaboradoras regionais. Também esperam encontrar empresas interessadas em parcerias para ajudar a expandir a ideia.

“[Queremos] O crescimento [do número] de mulheres inseridas no mercado de trabalho e consumindo mais títulos de jogos. Nosso sonho é que as mulheres brasileiras se tornem referência no desenvolvimento de games e que a participação global feminina seja cada vez mais forte na economia do setor.”

As WUGERS

A vida das borboletas

imagem: tumblr

Uma vez, como costuma acontecer todos os dias, eu me perdi nos meus pensamentos e meio que do nada me veio em mente o ciclo de vida das borboletas. Sem querer, comecei a examinar cada fase que elas vivem, a começar por quando elas ainda estão no ovo. É nessa fase que elas começam a se desenvolver, e ainda estão despreparadas para enfrentar o mundo.

Depois que saem do ovo, elas são apenas larvas, lagartas que têm como “tarefa” se alimentarem e crescerem. Essa é a fase mais longa de suas vidas, e mesmo que não seja a mais graciosa, é a na qual elas mais passam por preparações para a fase seguinte. Então formam um casulo ao redor do próprio corpo, ficam na fase de pupa, quando elas passam por um período em que ficam lá dentro, longe do resto do mundo, para desenvolver suas asas. No fim dessa fase, elas passam pelo maior desafio: sair do casulo.

Elas se esforçam ao máximo para conseguir, e assim preparam suas asas para a fase seguinte. Se não passarem por isso, suas asas ficam fracas, e seu destino provavelmente é ser pega por algum predador. Então vem a mais graciosa das fases, quando se tornam borboletas, e abrem suas asas para o mundo. Porém essa é a mais curta de todas. Por fim, após o acasalamento, elas põem seus ovos, e logo em seguida morrem, mas não sem antes deixar novos “projetos” de borboletas.

Nossas vidas são muito mais semelhantes às das borboletas do que costumamos pensar. Nós também passamos por essas fases. Cada uma da vida das borboletas equivale a uma nossa. A fase do ovo é quando nós também estamos despreparados para enfrentar o mundo, e nos desenvolvemos aprendendo a cada dia. Quase sempre, nessa fase estamos envolvidos por uma proteção que pode ser a de nossos pais, ou até a de nossa própria timidez.

Quando ela é uma lagarta é equivalente ao momento em que continuamos crescendo e aprendendo, mas não estamos mais envolvidos por essa proteção, e às vezes o que nos faz desenvolver são os erros e feridas que sofremos ao explorar esse mundo novo. Geralmente também é a nossa fase mais longa, pois precisamos aprender muito na vida, e como com as borboletas, não é nossa fase de mais destaque.

Passamos pela fase de pupa em um momento crucial de nossas vidas, quando também abrimos mão de algo que amamos por muito tempo para completarmos nosso crescimento. Esse objeto de nossa estima muda para cada pessoa, e quase sempre ele retorna a nós. Sair do casulo também é um desafio para as pessoas. É uma grande provação pela qual passamos, que nos exige muito esforço, porém é ela que nos faz melhores para o futuro, e muitas vezes sem isso não podemos seguir fortes.

E então vêm as nossas asas. É o fruto de tudo pelo que passamos durante a vida, quando nos desenvolvemos por completo. Essa fase não quer dizer necessariamente reconhecimento, mesmo que alguns o consigam, mas sim um crescimento para nós mesmos.

Quando chega o fim de nossas vidas, colocamos os nossos “ovos”. Aqui essa palavra não quer dizer exatamente nossos filhos (mesmo que possa incluí-los), mas aquilo que deixamos para o futuro, e até mesmo nossas marcas na história.

Essas fases não devem ser confundidas com faixas etárias, pois elas pouco se influenciam pela idade. As fases se embaralham para cada pessoa, podendo algumas simplesmente “pularem” algumas fases, ou virem a não completar esse ciclo. O que deve ser levado em consideração é que nós mesmos não devemos tentar interferir nele, pois todas essas fases são necessárias para nos tornarmos alguém a ser lembrado, como uma graciosa borboleta.

Dama da noite – por Ana Paula Lopes

No princípio, era apenas uma estrela, um pequeno ponto brilhante entre tantos que enfeitava a infinita escuridão daquela noite de outono. Não era nenhuma estrela especial. Apenas uma ideia solta, flutuando no céu. Sabe-se lá por que razão não se perdeu no espaço. Talvez porque soubesse que ser somente mais uma entre tantas não era suficiente, talvez porque estivesse presa a Terra, porque estivesse presa a você.
Todas as noites a estrelinha aparecia no céu e ficava horas piscando consigo mesma, tentando de todo modo imaginar o que se passava em sua mente. Pobre estrelinha… descobriu que, na verdade, o que a prendia a você era amor, em toda a sua pureza e simplicidade.
Mas uma estrela não pode amar um homem. Ela está tão longe, tanto que seu calor nunca tocaria o coração de seu amado. Pôs-se, então, a chorar lá do céu. Vendo as lágrimas de luz que lançava sobre a Terra, a bondosa Lua se compadeceu da estrela:
– Diga-me, filha, por que chora?
– Meu amado, senhora Lua, nem sabe que existo. Eu, daqui de cima, só posso brilhar e esperar que ele me veja. Mas parece que ele nunca olha pra mim…
– Compreendo sua dor. Gostaria de poder ajudá-la de alguma forma.
– Oh, não! – disse a estrelinha se apagando entre soluços – A menos que consiga me mandar à Terra, não há nada que possa fazer. 
A Lua sorri redondamente mostrando toda sua face iluminada de sol. 
– Acho que posso ajudá-la… – respondeu a Lua – mas você deve saber que para descer até ele, não poderá ir com sua forma original. Diga-me o que gostaria de ser, entre qualquer dos seres terrestres, e lhe realizarei o pedido.
A estrelinha lançou um ultimo brilho sobre você, que estava sentado sozinho na praça com uma flor nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê…
– Faça de mim uma flor – pediu a estrelinha – mas que possua o mais doce perfume, para que ele saiba que estou lá.
Assim a Lua fez. Logo que a cidade adormeceu, ela desceu à Terra, mas já sem seu brilho de estrela, agora era uma flor, tão branca, tão pequena e tão delicada que passaria despercebida a olhos desatentos. Seu perfume, porém, era tão doce que chegava a ser enjoativo a narizes mais sensíveis. 
Orgulhosa de si mesma, a estrelinha que agora era flor, agradeceu a Lua com um balanço de suas folhas ao vento, ao que a Lua respondeu com um sorriso de luz.
Com o passar dos dias, a flor crescia e expandia rapidamente seus ramos e flores, mas você parecia não se importar com a presença de uma nova planta na praça. Vinha até ela, sentava-se ao no banco seu lado, mas nem olhava para a pobre flor que insistia em envolvê-lo com seu perfume. 
O que haveria de se passar em sua mente sempre que vinha para a praça se assentar naquele banco? E a flor se irritava por não entender você. Queria gritar para que você ouvisse, queria que você a notasse ao seu lado. Mas flores não falam, assim como as estrelas.
Foi quando a flor percebeu que se as estrelas não podiam amar um homem, as flores também não, pois nenhuma das duas tem o poder de confessar esse amor. De que valeu então abandonar sua vida de estrela para se tornar uma simples flor presa a terra por suas raízes que não a deixavam se mover? Como doía vê-lo partir todas as noites sem que nada ela pudesse fazer que não fosse deixá-lo ir.
Se uma flor pudesse chorar, aquele seria o momento, já que havia se tornado tão simples, se rendido tão completamente a um amor impossível. Uma flor não podia amar um homem, pois este nunca entenderia este amor. 
Numa dessas noites que você ia a praça, a flor conseguiu, enfim, ver o motivo de seus passeios noturnos por ali. A sombra de uma moça que se formou pela janela atraiu como ímã seus olhos atentos. Era ela a dona de seu coração.
A florzinha ficou triste, pois sabia que não podia competir com uma mulher de verdade, nem que fosse somente com sua sombra, pois flores não têm olhos sedutores, nem lábios delicadamente pintados. Nunca poderia abraçá-lo, nem sequer dizer o quanto o amava.
Então a florzinha chorou lagrimas de orvalho. Lágrimas que foram logo acolhidas pelo brilho da bondosa Lua.
– E desta vez, minha filha, por que chora?
Pobre florzinha… Soluçava perfumosa de arrependimento. Como pode acreditar que o simples fato de estar na Terra faria você se apaixonar? Respondeu envergonhada de sua ingenuidade:
– Meu amado, senhora Lua, nem sabe que existo. Eu, daqui de baixo, só posso me perfumar e esperar que ele me veja, mas parece que nunca olha pra mim… Acho que me enganei. Ser flor de nada adianta.
– Pois me diga então o que gostaria de ser?
A flor suspirou a brisa da madrugada. Sabia o que queria, mas sentiu medo de estar novamente enganada ou se arrepender mais tarde. E o temor se tornou maior do que a força que ela tinha para lutar pelo seu amor. Talvez aquele fosse mesmo um amor impossível. Até que ponto vale a pena lutar por uma utopia?
– Se não for pedir demais – a flor secava nas folhas suas lágrimas de orvalho – gostaria de voltar para a minha antiga vida no céu. Voltar a ser estrela.
A Lua se espantou com o pedido.
– Mas e o seu amado? Vai desistir do amor sem lutar por ele? Vai deixar o pessimismo vencê-la assim?
– E de que vale ser otimista se a realidade nos mostra sempre o quanto nossos sonhos não se realizam?
A Lua foi obrigada a aceitar a opinião da florzinha. Porém, naquele instante, lhe veio uma luz, uma idéia que poderia ajudar a pequena flor.
– Eu lhe tenho uma sugestão – sorriu a Lua – Eu lhe transformo em mulher, por uma única noite, para que possa confessar seu amor. Voltarei para saber sua decisão final.
E assim aconteceu. Na noite seguinte, assim que você se sentou na praça, a Lua lançou sobre a florzinha um raio de luz encantado e a florzinha se transformou na mais bela moça que você já tinha visto. A pele tão branca, macia e aveludada que mais lembravam as próprias pétalas da flor que havia sido. Os olhos eram brilhantes como um par de estrelas roubadas do céu. O cabelo longo e negro como a noite lhe caia sobre um dos ombros, transado com flores, e o vestido que lhe cobria o corpo era de uma seda branca nunca vista por ninguém.
Vendo-se naquele corpo, a florzinha (que antes era estrela e agora era mulher) soube o que deveria fazer. Viu a sombra da moça na janela e, engolindo seco, foi até você.
– Boa noite. – ela disse sorrindo.
– Boa noite. – você respondeu.
A moça pensou por um instante e continuou:
– É sua namorada? A moça da janela?
Você se espantou com a pergunta atrevida da moça. Pensou por um momento e respondeu:
– Não.
– Mas você gosta dela, não é verdade?
Você já ia responder quando se deu conta da situação: estava falando de sua vida particular com uma desconhecida que acabara de chegar e que, julgando pela aparência dela, nem era dali.
– E quem é a senhorita?
– Eu… – ela pensou – Sou uma amiga. Mas você não respondeu a minha pergunta. Você ama aquela moça?
– Amo, mas de que adianta? Ela nem sabe que eu existo… Eu, pobre que sou, não sou digno nem mesmo de sua sombra projetada na janela. Daqui da praça, tudo que posso fazer é apreciá-la em seu quarto e esperar que, quem sabe um dia, ela me veja, mas parece que nunca olha pra mim.
A moça compreendeu, pois percebeu que mesmo entre seres de uma mesma espécie, poderia existir amor não correspondido. Que você sofria do mesmo mal que ela, sem que nenhum dos dois tivesse coragem para se declarar. Estava ali um perfeito triangulo amoroso. Mais uma vez o silêncio se espalhou pela praça.
Foi nesse momento que a moça soube que a coisa certa a fazer, nem sempre é aquilo que mais nos agrada. Que amar muitas vezes significa fazer sacrifícios para ver a pessoa amada feliz. Percebeu que juntos nunca ia dar certo. Era mulher a menos de cinco minutos, o que ela poderia saber sobre a vida em sociedade, sobre civilização, sobre família, sobre ser mulher? Ser humana exigia responsabilidades que ela desconhecia. E uma estrela nasceu para brilhar por conta própria e não para depender de outro ser. Mesmo que esse ser fosse você.
Tirou de seu cabelo cada uma das flores e, com elas, fez um belo buquê. Colocou-o em suas mãos como se entregasse a você o puro coraçãozinho dela e disse num sorriso triste:
– Tome estas flores. Entregue-as a sua amada e diga o quanto à ama. Ela saberá retribuir esse amor.
Dizendo isso, ela lhe abraçou forte e longamente. O abraço que esperou tanto para receber era agora um abraço de despedida. E a moça chorou sobre seu peito. Pela primeira vez, eram lágrimas reais, lágrimas doidas e apaixonadas que você não compreendeu. Então ela o deixou ir. 
E você foi. Quando olhou para trás e não viu mais a moça, pensou ter tido uma alucinação. Mas as flores eram reais e as lágrimas em seu peito também. Você bateu à porta. Uma velha senhora atendeu.
– Como posso ajudá-lo?
Você hesitou por um instante antes de responder:
– A sua filha está em casa?
A senhora soltou uma risada.
– Filha? O moço deve ter se confundida de casa. Eu moro sozinha.
Você se sentiu tonto. Ou aquela mulher não queria que você falasse com sua filha ou algo muito estranho estava acontecendo. Não era aquela mulher a dona da sombra na janela, pois a sombra ainda estava lá. 
– A senhora tem certeza que não mora com outra moça em casa?
– Claro que sim – a senhora respondeu um pouco desconfiada. – Só eu de Deus.
– Mas a sombra de uma moça que eu vejo todas as noites com a senhora, de quem é?
A senhora sorriu. Você não entendeu. Então ela o levou até o quarto de sua amada. 
– Viu? – a senhora explicou – Este é meu atelier. Eu sou costureira. A sombra que você vê pela janela não passa de um manequim.
Você pediu desculpas e se afastou da casa entristecido. Trazia o coração partido por saber que tinha se entregado a alguém que não era real, a uma simples imagem, uma boneca. O perfume das flores em suas mãos ainda o envolvia, lembrou-se da misteriosa moça e olhou para o céu. Mal sabia você que quem mais sofria com isso era a pobre estrelinha, que desistiu de seu grande amor por uma mentira.

Quem escreve

                                
Sou Ana Paula Lopes, jornalista e mestranda em Linguística da UFV. Natural de Viçosa, já me classifiquei em dois concursos de literatura nas categorias conto e história infantil. Sinto-me muito feliz em poder contribuir com o blog mostrando um pouquinho do meu trabalho.

Odette/Odile – por Lana Scott

quinta-feira, 16 de julho de 2015 
Odile
“Esse é o meu lugar.” pensou ela, no exato momento em que pôs um pé para a frente e levou um encontrão de alguém que passava com uma bandeja cheia de módicas porções de algum crustáceo adornado com molho. “Aqui nesse engasgo de encruzilhada”.
Desculpas foram murmuradas e a bandeja seguiu flutuando acima das cabeças, cheias de laquê ou gel de cabelo. 
O pensamento lhe ocorreu, não porque gostasse de crustáceos, ou mesmo do garçom: as palavras lhe vieram meio que como sugestão do universo, metalinguagem do próprio recado que lhe estava dando. 
“Por mais que eu ande, dance, circule e eventualmente coma módicas porções de petiscos com molho, sempre acabo passando de novo neste ponto… Estagnada, o fluxo impedido.” concluiu. 
A mente trabalhava a todo vapor, percebendo o ambiente, enquanto apenas uma parte tinha ciência do pensamento perturbador e tomava nota, como um lembrete deixado na porta da geladeira. 
Ela gostava do fluxo natural das cadências. A fechada de caminho quebrara seu ritmo, que ia embalado pelo ruído das centenas de vozes (eufóricas, talvez até histéricas) que eram emitidas e se batiam e rebatiam diversas vezes nas paredes do imenso recinto. Recuperou-se e retomou a linha principal de seus pensamentos, que envolviam praguejar contra o volume alto demais daquela reprodução estourada do que um dia alguém chamara de música. 
Envolviam também uma urgência não verbal de sentar-se para calar os pés, massacrados por sapatos de salto que ela nem ao menos queria estar usando. Apesar de todos os incômodos, seu saldo de sensações era inexplicavelmente positivo. Talvez fosse um certo contágio com a ideia de grandeza e importância que todos pareciam ter de si mesmos, como se acreditassem estar num baile da nobreza do século XVII. Essa fantasia também a penetrava, numa osmose catalizada por docinhos graciosos, módicas porções de crustáceos com molho e bebidas servidas em copos de cristal. 
Sim, bebidas! Elas ajudariam a neutralizar a dor e seu senso, por demais críticos. 
“Bem que eu sentia falta de alguma coisa…”. 
Houve certo rebuliço e exclamações de prazer na parte do seu cérebro que se sentia um tanto quanto seca, como se vários publicitários trabalhassem num escritório lá dentro e houvesse um boato de aumento. Um pouco de embriaguez talvez tornasse seu peso mais leve sobre os saltos e embaçasse os ouvidos, passando também sobre os olhos um filtro dourado como as sandálias de quem usa estampa de oncinha.
Saiu andando, agora de maneira mais firme e decidida. Era sempre constrangedor andar sem rumo numa festa. Todos pareceiam ter coisas muito importantes ou divertidas para fazer. 
“Bom, agora também tenho.” gracejou consigo mesma, satisfeita. Aliás, quase: a real satisfação viria quando tivesse cristal e líquido âmbar entre seus dedos. Poderia até ficar parada, blindada, bebendo em silêncio… Verdadeiro luxo! Nada autorizava mais alguém a ficar parado numa festa do que ter um copo nas mãos.
Com o repuxo irônico dessa sabedoria entortando os lábios ela foi desviando dos vários paletós e vestidos que ocupavam os espaços, existências febris pulsando dentro deles. Ela quase não reparou em seus rostos. Os olhos corriam, metódicos, em busca de gravatas borboleta – símbolo extra oficial de servidão, que abraçava tal qual coleira o pescoço dos garçons. De forma automática, descia das gargantas para as bandejas, eliminando sistematicamente as que continham alimentos. 
Buscava algo mais interessante para sua própria garganta do que crustáceos, gravatas ou molho, e de preferência em não tão módicas quantias. Avistou afinal taças compridas, cheias de um líquido mais claro e borbulhante que o desejado e projetado por seus pensamentos. 
“Mas serve.” pensou, uma sensação já agradável lhe tomando. 
– O senhor me vê uma taça, fazendo o favor? – pediu ela, tentando não deixar transparecer a sua avidez. O garçom olhou-a de cima a baixo e com a mão livre ajeitou a gravata borboleta, como quem coça uma chaga. 
– Sinto muito, mas a senhorita é obviamente menor de idade e não posso te dar bebida. 
A isto, a princípio, ela não soube como reagir. Aquilo nunca lhe acontecera na vida, nem mesmo quando era menor de idade. Forçando um sorriso simpático, ela perguntou: 
– E quantos anos o senhor acha que eu tenho, pelo amor de deus? 
Talvez captando uma parte da ironia mal contida da pergunta, o homem hesitou por um segundo antes de responder, ensaiando um sorriso triunfante: 
– Quinze. Uns quinze no máximo.
Dessa vez ela não pôde se conter. Um riso lhe sacudiu de tal forma que ela mal reconheceu a própria voz. Enxugando os olhos, apanhou a taça que lhe foi estendida e limpou o riso com um suspiro e um gole. Algo no sarcasmo dos olhos, no cansaço da sua risada, convencera o garçom melhor do que um documento de identidade faria. Não se pode falsificar esse tipo de coisa na impressora de casa, afinal de contas. 
Afastou-se do garçom (e da sua bandeja) meio a contragosto. Gostava do peso da taça nas mãos, mas gostava mais do peso do líquido descendo pela garganta e se alojando no estômago. Seu cérebro contorceu-se de alegria, vibrando como se no escritório todos estivessem assistindo a um jogo de futebol no meio do expediente. Gol. Logo precisaria de refil. Controlou-se para não beber muito rápido e fazer render o momento em que podia parar de fingir estar interessada em qualquer coisa que as pessoas estivessem usando para se entreter. Ah, abençoados minutos! 
Não que ela não gostasse de festas… Estas eram, afinal de contas, um habitat natural de bêbados e ela gostava muitíssimo de pessoas embriagadas. O que mais a incomodava nesse tipo de evento era o quê de histeria na pulsação das pessoas, desesperadas para se divertir. O que festejavam, afinal, se precisavam catar migalhas de alegrias artificiais? 
“Por favor, não tente puxar conversa. Por favor, por favor, por favor…” pensou ela, ao notar a aproximação de um homem à sua esquerda. As palavras se repetindo na cabeça como uma prece, enquanto tentava evitar contato visual. O esforço mostrou-se inútil, como de costume. O homem, não percebendo seu desconforto (ou simplesmente ignorando-o por comodidade) tratou de colocar-se aso seu lado e olhou ao redor em busca de um assunto qualquer para lhe falar. 
“Se ao menos esses copos viessem com um sinal de ‘ocupado’, como quartos de hotel ou plaquinhas de rodízios…” resmungou consigo, enquanto fazia um contorcionismo para parecer desconhecer a tentativa dele de comunicar-se com ela. “Ao menos, pelo cheiro ele parece bêbado. Talvez seja até uma conversa entretível.” pensou, tentando consolar-se. 
– Festão… – começou ele, aparentemente cansado de procurar um motivo mais digno para quebrar o silêncio. 
– É. – disse ela, virando-se para ele, enfim. 
Com o terno já aberto e a gravata frouxa, o homem devia ter seus 40 e poucos anos. O rosto levemente avermelhado e os olhos brilhantes confirmavam o que o cheiro sugerira: ele estava bêbado como um peru de natal. Sentindo sua simpatia crescer quase que automaticamente, ela acrescentou: 
– O buffet é de primeira. 
Quase arrependeu-se do complemento quando ele, sentindo uma abertura, assumiu-se autorizado a intimidades: 
– Você bebe muito pra sua idade. – disse, algo entre risonho e repreensivo.
“Haja!” gritou ela por dentro, sem poder impedir os olhos de se revirarem nas órbitas. Segurou a língua ferina, sem paciência para confusão, e lançou uma resposta ambígua: 
– Fazer o quê? Champagne bom da porra. 
– Você também xinga bastante pra sua idade… 
– E você parece ter bastante ciência dos dados do meu nascimento. – ralhou ela, agora visivelmente irritada – Vamo lá, conte-me mais sobre as minhas primaveras! 
O homem engoliu em seco (talvez não tão seco assim) e balançou de leve para trás como se a raiva tivesse lhe atingido e desequilibrado tal qual corrente de ar. Depois de piscar algumas vezes em silêncio, soltou um arroto de boca fechada e tentou outro caminho: 
– Não provei… Prefiro Whisky. – retomou, o tom de voz já mudado. 
Ela respirou fundo e, olhando para a própria taça, já quase vazia, matutou se saía e o deixava falando sozinho ou se dava chance para a conversa. Acabou optando pela segunda opção, afinal Whisky era bom demais. 
– Eu também, mas não achei e minha garganta estava bem seca… 
– Posso te mostrar onde tem. – ofereceu ele, abrindo um sorriso vesgo. – Peguei tantos que o garçom já sabe até meu endereço. 
– Parece ótimo. – riu ela, virando a taça de champagne e colocando numa mesinha com outros copos e pratos vazios. 
– O nome dele é William e você não acredita em como eles pagam mal… – continuou ele, enquanto abriam caminho pela festa, conversando. 
Arranjei quem me aguente por hoje” pensou ela, satisfeita consigo mesma e com a noite. Módicas porções de interação social não lhe fariam mal, no fim das contas. Principalmente se acompanhadas de não tão módicas quantias do líquido âmbar que era tão aguardado pelos escritórios secos da sua mente.

Quem escreve

                      

Me chamo Lana, tenho 20 anos e uma incrível fome de mundo(s). Sou uma amante das histórias. Apaixonada por ouvi-las e contá-las de todas as maneiras, através das mais diversas artes e suportes. Desde pequena fui encantada pela música, pelo movimento do corpo, pela magia… E pela literatura, que me apresentava mundos fantásticos além deste, me dava o direito de viver mil vidas além desta. Talvez seja por isso que escrever seja a arte que eu faça com mais intimidade e coragem.

Seja como for, o importante são as histórias

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