Algo sobre Carolina Maria de Jesus

Há dias que fiquei ruminando pensamentos sobre como poderia expressar em palavras o que a escrita de Carolina me fez sentir, falar sobre os efeitos dos ecos que cada palavra escrita por ela reverberou em meu ser.

Poderia aqui falar a partir de uma perspectiva social baseando-me nas denúncias feitas por Carolina à uma realidade que ainda se faz presente- a realidade cruel vivida pelo povo negro, pobre, a realidade do quadro político do Brasil- o mesmo desavergonhado e perverso de hoje ou me ater à perspectiva feminista- sim, Carolina era feminista, um feminismo não acadêmico ou teorizado, mas fruto de uma experiência de vida, um feminismo de uma mulher que também foi “macho”, um feminismo honesto de uma mulher que ousava, sempre que possível, driblar o próprio machismo e fugir da linha reta e inflexível traçada pelo patriarcado.

Entretanto, e entre tantos pensamentos, gostaria de falar sobre poesia, sobre a poesia que foi Carolina. Como ela conseguia enfeitar a careta da vida com as palavras? sigo o rastro da palavra “fome”, palavra que por diversas vezes apareceu na escrita de Carolina e que contrariamente do que se esperava, na realidade, ao invés de gerar total desfalecimento parecia um certo tipo de combustível para que Carolina continuasse a escrever- isso não é coisa que se entende, é coisa que se constata, sente.

Carolina conseguiu metaforizar a fome, transpor em palavras o que muitos não conseguiam dizer- a fome cala, desfortalece. Poesia que era, conseguiu fazer um movimento- um palavreado- fiel ao que sentia, fiel à sua dificílima realidade, um movimento tão preciso que era como se ela, assim como nos games, ganhasse uma nova vida a cada dia que escrevesse. Para Carolina, escrever era viver, as palavras eram seu principal e mais nutritivo alimento- alcançava a alma.

Por fim, ouso dizer que Carolina foi poesia viva, que apesar da fome, foi palavra-vida escrita nua e crua, e bela na cara da sociedade.

Um comentário em “Algo sobre Carolina Maria de Jesus

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