– Cês ouviram da Mariana?
– Que Mariana?
– A Mariana Castro, do terceiro semestre.
– Não, que foi?

Contou as pílulas. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Será que isso dava? Tinha que dar, ela pensou.
– Tá no hospital. Tentou se matar, parece.
– Mentira! A Mariana?
– Pois é.
– Pai? – Começou com cautela, torcendo as mãos.
– Hm.
– Dá pra falar agora?
– Tô saindo já. Que foi, Mariana?
– Eu acho que eu tô com um problema.
– Tem que ser agora, filha?
Ficou em silêncio.
– Anda, Mariana.
– Nada não, pai. Pode ir.
– Caramba…
– Pois é. Quem vê não diz, né?
Não tinha gaze em casa. Nunca tinha nada em casa, capaz que ia ter gaze. Teve que colocar papel higiênico entre a pele das coxas e o jeans da calça pra não roçar nos cortes.
– Não, nem a pau.
– Bom, teve aquela vez… Lembra? Na aula de semiótica?
Sentiu um nó na garganta, um aperto. Quando a cena começou ela desviou o olhar da tela, mas ainda dava pra ouvir os gemidos. “Não, não”, Grace implorava, mas óbvio que ninguém fazia nada. Voltou a olhar pra frente quando achou que a cena tinha terminado, mas ela seguia, em silêncio. Chuck em cima dela. A ausência de cenário era uma estratégia simbólica, a professora havia dito. Era como se todos soubessem. E todos sabiam. E ninguém fazia nada. Que merda. Saiu da sala correndo, deu sorte de chegar a tempo no banheiro feminino, abrir a tampa do vaso e vomitar.
– É, aquilo foi estranho. E depois ela não voltou mais, né?
– Não, pra essa cadeira não.
– Teu pai e eu te damos tudo, Mariana! Teu pai tá com dois empregos pra pagar essa tua faculdade, que nem dinheiro vai dar, e tu me roda numa cadeira pra gente ter que pagar de novo?
– Desculpa, mãe. Não vou mais rodar, juro.
– Desculpa não adianta. Desculpa não vai pagar a mensalidade.
– Desculpa…
– Cês acham que tem alguma coisa a ver?
– Claro que não. Quem é que se mata por causa de filme?
– Sei lá, vai saber. Nem conheço a guria direito.
Faltou ao estágio naquela manhã. Eles ligaram, mas ela não atendeu. A faculdade era longe, a porta era longe, o telefone era longe.
– Anda, Mariana! – a mãe bateu na porta.
– Eu tô doente, não vou hoje.
– Doente do quê, menina? Tá doente nada. Ontem fui trabalhar com 39 graus de febre e tu fica aí nessa cama?
– Roberto pegou ela, cês sabiam?
– Roberto? Sério?
– Sim. Comeu e tudo.
Se encolheu na cama quando Roberto saiu. Viu o vulto dele se afastar pra jogar a camisinha fora, ouviu o som do chuveiro logo em seguida. Parecia chuva. Dormiu.
– Como tu sabe?
– Ué, todo mundo sabe.
– Vem pra minha casa, tá tarde.
– Não, eu tô bem, eu chamo um táxi.
– Vem, Mari, te levo no outro dia.
– Não precisa, Roberto.
– Tu não pode chegar em casa assim. E a gente pode ficar mais um tempo juntos.
– Que tenso.
– Diz ele que ela até era legal, mas aí ele voltou com a Bruna…
– Tu engordou, Mariana?
– Sei lá, tia, acho que sim.
– Tem que ver isso. Mulher gorda nenhum homem quer.
– Credo, tia!
– E tu também não te cuida. Não pinta as unhas, não arruma o cabelo. E ainda vai assim na festa?
– Na boa, se quisesse se matar mesmo, tinha conseguido.
– Credo, Diego!
Será que isso dava? Tinha que dar, ela pensou. Tinha que dar por que não aguentava mais. Não via saída, tinha medo de tudo, de todos, de si, do mundo. O túnel era tão longo que nem luz se via. Não tinha como seguir assim. Mariana só queria apagar. Se acabasse com tudo, tudo ia ficar bem.
– Mas é, ué! Deve tá querendo chamar atenção.
